terça-feira, 12 de junho de 2012

VII Encontro IF-EPFCL - Prelúdio 8



O QUE RESPONDE O PSICANALISTA? ÉTICA E CLÍNICA
6 – 9 Julho de 2012


Prelúdio 8: UM TIPO DE AJUDA DIFERENTE

Leonardo RODRIGUEZ
           
“Doutor, o Sr. acha que pode ajudar o meu filho?”
            Se soubesse…
            “Veja, senhora, devo escutar o seu filho antes de poder responder a sua pergunta. Mas, diga-me o que a Sra. fez para ajudá-lo”
            Uma mãe precisa armar-se de coragem para trazer seu filho ao psicanalista: se envergonha de expor sua ferida narcísica, mas de qualquer forma tem coragem suficiente para ir mais além de seu sentimento de humilhação e derrota. Como toda pergunta pertinente, sua pergunta contém uma resposta, ou pelo menos o princípio de uma resposta. Ela deve ter imaginado que eu poderia ajudar o seu filho, caso contrário, para que dar-se o trabalho de trazê-lo? Além do mais, a senhora deve ter refletido acerca das ambigüidades e incertezas que circundam a palavra “ajuda”: tinha levado seu filho a oito profissionais distintos da saúde mental (como se costuma chamá-los). Esses profissionais não proveram nenhuma ajuda, ainda que alguns deles houvessem prometido ser úteis e ajudar. Sua experiência de consultas profissionais múltiplas a levou a dar-se conta de que devia haver uma dimensão ética em seu intento de ajudar o seu filho. Ainda que seu conhecimento da psicanálise e de psicanalistas era muito limitado, pensou que o psicanalista lhe ofereceria não somente um enfoque clinico e “técnico” diferente, mas também uma postura ética distinta. Tinha razão de pensar desta maneira. Além de outras considerações clínicas e psicopatológicas, o caso apresentava explicitamente uma questão ética: o filho, de nove anos de idade, já estava cansado da ajuda “desses idiotas que pensam que eles sabem uma montoeira de coisas, quando não sabem nada de nada”, e havia acrescentado que ele “não queria nenhuma ajuda, não necessitava nenhuma ajuda, e só queria que o deixassem em paz”. O psicanalista Wilfred Bion, famoso no mundo de fala inglesa, sobre cujo trabalho Lacan comentara pouco depois do fim da segunda guerra mundial, conta uma anedota acerca de um paciente que foi procurá-lo em um estado de grande agitação e irradiando medo ao seu redor. Bion lhe disse que não tinha por que preocupar-se, que ali podia sentir-se seguro, já que ele, Bion, não tinha em absoluto a intenção de ajudá-lo.
            A ajuda pode ser perigosa, especialmente nestes tempos em que há tantas indústrias terapêuticas e farmacológicas ansiosamente dispostas a ajudar. Já Freud nos tinha prevenido quanto ao furor sanandis, essa paixão por curar qualquer um a qualquer momento e a qualquer preço, quer o paciente queira esse tipo de tratamento ou não. Este continua sendo para os psicanalistas um problema ético de primeira linha, dado que de acordo com as expectativas culturais o psicanalista é alguém que está para ajudar, e uma vez que gente de todas as idades que vêem nos ver e que eventualmente se convertem em analisantes querem autenticamente ser ajudados. Não há nada errado nisso: pelo contrario, seria realmente muito estranho que o presumível analisante não estivesse absolutamente interessado em receber alguma ajuda; também seria realmente muito estranho que o analista declarasse não estar interessado em ajudar o paciente, se tal declaração refletisse verdadeiramente sua política, que no deve confundir-se com uma intervenção tática à la Bion. Se o fizesse, pronto encerraria seu trabalho, nestes tempos em que a psicanálise é objeto de ataques sinistros, difamatórios e carregados de ódio, e de avaliações pseudo-objetivas de sua eficácia terapêutica, avaliações que chegam à conclusão de que a psicanálise não é de forma alguma útil para o tratamento de estados patológicos e tragédias humanas (definidas estas últimas de acordo com as categorias pseudocientíficas do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV, que pronto será substituído pelo DSM-V, que não promete ser melhor que seu predecessor).
            Mas nossa capacidade de ajudar a outros seres falantes, que não deve ser negada, requer ser questionada no marco desse tratamento do gozo humano que constitui o discurso psicanalítico: questionada como todos os outros ingredientes de nosso campo, o campo lacaniano, o campo do gozo e seus destinos.
                                                                   §


            Nossa resposta é um ato, e enquanto tal deve ser administrada responsavelmente: não é por nada que resposta e responsabilidade    compartilham a etimologia. Como psicanalistas assumimos a responsabilidade de responder a perguntas e demandas que sejam pertinentes; assumimos nossa responsabilidade pelo conteúdo e pelos efeitos de nossa resposta; e também devemos assumir responsabilidade por nossa função de facilitar que outros gerem perguntas e respostas que sejam criativas e construtivas, e também respostas. Em algum de seus escritos Colette Soler diz que os neuróticos estão sempre cheios de perguntas, mas não estão especialmente interessados em obter respostas. E a experiência demonstra que as boas perguntas geram respostas razoáveis.
            Nossas respostas responsáveis dizem respeito às perguntas e demandas colocadas por sujeitos individuais (nossos próximos seres falantes), assim como perguntas e demandas que nos apresenta a vida da cultura, da qual formamos parte, na medida em que existem, todavia pessoas e instituições interessadas no que os psicanalistas possam ter para dizer acerca dos graves problemas subjacentes ao mal estar de nossa cultura, e que chegam a ameaçar sua própria existência. Os autores dos Prelúdios precedentes já se referiram com eloqüência ao desafio que para a psicanálise significam os excessos e perdas de gozo resultantes do capitalismo voraz de nossa época. E é precisamente esta voracidade que ameaça a psicanálise, um dos poucos discursos que, como disse Lacan faz já quarenta anos (em Televisão), é ainda possível.


                                                            §
           
 Em 1932, sob o auspício da Liga das Nações, Sigmund Freud y Albert Einstein intercambiaram correspondência. Einstein foi o primeiro a escrever, e colocou a Freud uma pergunta difícil e imperiosa, uma pergunta que nesses anos sinistros de dominação nazista sobre uma parte do mundo necessitava uma resposta urgente; e é uma pergunta que continua sendo relevante, e tão urgente como sempre: Porque a guerra? Einstein foi ainda mais preciso: “Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça da guerra?” [1] Ainda que tivesse dito a Ernest Jones em particular que para ele a tarefa havia sido “tediosa e estéril”, Freud respondeu a pergunta. Lutando contra suas próprias resistências à tarefa, enquanto homem e criador da psicanálise Freud tentou oferecer uma contribuição orientada pela ética da psicanálise. Sua discussão conceitual do problema e o bosquejo de soluções práticas para lidar com a violência humana conservam sua validade até hoje em dia e ninguém pode dizer que esta resposta de um psicanalista (mesmo se levamos em conta que Freud não é um psicanalista qualquer) se tornou obsoleta depois de oitenta anos, que foram oitenta anos de guerras, sem que se passasse um ano com menos de várias dezenas de guerras em distintos pontos do planeta. Todo ser humano se beneficiaria ao ler e re-ler este texto exemplar de Freud, que não perdeu nada de sua capacidade para inspirar reflexões teóricas e ações concretas; ações que, sem duvida alguma, requerem coragem – o tipo de coragem que uma mãe necessita para levar seu filho ao psicanalista- mas que certamente não são impossíveis.                                                                           


                                                              § 
           
Einstein escolheu a guerra como tema para o intercambio epistolar, e quando foi solicitado a recomendar um interlocutor imediatamente pensou em Freud como a pessoa que teria algo para dizer nessa matéria. Não é seguro que hoje em dia alguém se dirija a um psicanalista com um pedido semelhante, ainda que seja certo que, insisto, Freud não é um psicanalista qualquer. De qualquer forma, em minha opinião o principal problema com que nos enfrentamos é que já não se valoriza a resposta de um psicanalista como antes.            Sem, de formas alguma, ter esgotado as questões envolvidas (já que a vida segue seu curso e nos apresenta novas questões e problemas a cada dia), temos estudado extensamente as respostas que os psicanalistas puderam produzir, e que constituem uma alternativa válida, única e criativa para as respostas da religião, da filosofia especulativa, das distintas ideologias e dos progressos científicos, cada vez mais subordinados aos interesses anárquicos que dominam a fase atual do capitalismo. As respostas que os psicanalistas têm fornecido vão desde aquelas que nosso discurso é capaz de dar a indivíduos que sofrem; aquelas que surgiram no discurso analítico graças ao trabalho dos analisantes que passaram, ou tentaram passar, à posição de analista; aquelas outras que derivam do trabalho com as diversas formas que as estruturas clínicas adotam hoje; até aquelas que correspondem às modalidades múltiplas de decomposição e desarranjo no domínio sociopolítico que são sintomáticas do mal estar na cultura. Se pode julgar estas respostas psicanalíticas e declará-las bem modestas, principalmente se as comparamos com a magnitude e gravidade dos problemas que enfrentamos em todos os planos da vida humana. Mas não se pode descartá-las, como se não tivessem conseqüências, como as forças reacionárias do aparato antipsicoanalítico desejaria.
            “A luta não terminou”, disse Freud próximo ao final de sua vida. Por certo não terminou para nós, e nosso encontro no Rio de Janeiro é uma oportunidade preciosa para nossos Fóruns e nossa Escola: poderemos então comparar nossas experiências, aprender uns com os outros, e brindar uma contribuição ao que nossa comunidade pode fazer para que o psicanalista seja capaz de respostas melhores.

Fevereiro 2012
Tradução de Maria Luisa Rodriguez

[1]                    [1] S. Freud (1933b). ‘Why War?’. Standard Edition 22:197-215.
 

           

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