sábado, 23 de junho de 2012

VII Encontro IF-EPFCL - Prelúdio 9



VII Encontro da IF-EPFCL
O QUE RESPONDE O PSICANALISTA? ÉTICA E CLÍNICA
6 – 8 Julho de 2012

Prelúdio 9: RESPONDER PELOS CASOS DE URGÊNCIA

Michel BOUSSEYROUX

Responder é bem mais do que dizer alguma coisa a alguém, é comprometer-se a dar retorno, a favorecer, prometer, responsabilizar-se, como o indica a expressão: responder por si só. Para-além da resposta do analista, quer ela se dê por meio de palavras ou pelo corte, há aquilo pelo qual o analista tem de responder.
No discurso do analista, por se tratar de urgência, o analista tem mais ainda o dever de responder, a satisfação que marca o fim da análise é a urgência que a ela preside, segundo o dizer de Lacan em seu “Prefácio à edição inglesa do Seminário XI”, que propõe interrogar “como pode alguém se dedicar a satisfazer esses casos de urgência”[1], muito embora esses casos, ele confessa, justamente o atrapalhavam enquanto ele escrevia o prefácio. Mas era simultaneamente “para ficar a par desses casos, [para] fazer com eles par”[2] (idem) que ele estava escrevendo, que acreditava ter o dever de escrever.
 Lacan faz da escrita desse prefácio um dever a ser cumprido. O dever ético de responder, por meio da escrita, pelos casos de urgência, dos quais, como analista, ele é parceiro no discurso analítico, e também para ficar a par, para estar à altura desses casos. Contudo, para estar à altura desses casos de urgência, que não se tem certeza de satisfazer, convém ter pesado corretamente a urgência.
O termo “pesagem” conota em Lacan uma análise lógica das relações do indivíduo com a coleção e remete ao problema, tratado por ele desde 1945 em “O número treze e a forma lógica da suspeita”, do menor número de pesagens necessário para detectar, exclusivamente por uma balança de dois pratos, uma peça ruim que se distingue das outras peças da coleção por uma diferença de peso imperceptível sem um aparelho de medição e cuja aparência é igual. Este número corresponde a três pesagens, se a peça ruim se encontra no meio de 12 ou até de 13 peças, mas será preciso fazer quatro pesagens, se houver entre 14 e 40 peças, cinco pesagens, se houver entre 41 e 121, seis, se houver entre 122 e 364, etc... Lacan mostra que, para resolver este problema, é preciso colocar em jogo, nas operações de pesagem, o que ele chama de por-três-e-um e uma rotação tripartite, noções que fazem eco ao Lacan borromeano do Prefácio de 1976: na balança de dois pratos da verdade e do real, não há possibilidade alguma de pesar a urgência que está no pedido de entrada e que deve ser satisfeita no fim, sem que se tenha introduzido na operação analítica a posição do por-três-e-um, que é uma maneira excelente de qualificar a posição do sintoma, como o quarto aro  no nó borromeano que orienta a análise em direção ao real.
Lacan diz que aprendeu com seu ofício a urgência de servir os outros {não aos outros, mas osoutros}. “Aí está um aspecto singular”, escreve-o neste Prefácio, “do amor ao próximo salientado pela tradição judaica.”[3] Esta tradição judaica é a que aparece em uma passagem do Levítico. No século primeiro ela se tornou a lei de ouro da Torah e é ela que retoma o evangelho de Lucas, quando formula o preceito do amor ao próximo e o explica com a parábola do bom Samaritano. Lacan o comenta da seguinte maneira: “Mesmo interpretando-o de maneira cristã, ou seja, como um c...gar e andar [jean-fo... trerie][4] helênico, o que se apresenta ao analista é algo diferente do próximo: é a indiscriminação de uma demanda que nada tem a ver com o encontro ( com uma pessoa de Samaria, apropriada para ditar o dever crístico).” Esta parábola é uma interpretação de Jesus acerca do que significa a lei de ouro: Aquele que responde, que se confronta à urgência, não é o Judeu piedoso, é seu inimigo íntimo e ímpio, o Samaritano, odiado profanador do Templo de Jerusalém. O próximo da parábola não é o passante que, atacado pelos soldados, cai ao chão e clama por socorro, é o Samaritano, o outro do Judeu,  aquele que, como pôde dizê-lo Ivan Illich, é o Palestino de Gaza dos dias de hoje,  capaz de cuidar de um Judeu ferido. Ele só se dedica a satisfazer os casos de urgência, porque, assim como o Samaritano e ao contrário de Sade e de Freud, está suficientemente perto de sua maldade para nela reencontrar seu próximo.
 Compreende-se, então, porque Lacan fala do bom Samaritano para diferenciá-lo da singularidade da dedicação do analista em satisfazer os casos de urgência. Laca não se dedica ao amor ao próximo, por mais estrangeiro que este possa ser a nosso semelhante. Seria, antes, à porrinha {la mourre}[5]do real, jogo que ainda vigora em algumas regiões da Itália ou do país niçois onde o número veicula o real, que, sozinho, alcança o peso necessário para ganhar a aposta do inconsciente. O jogo do real, na medida em que ele não é de modo algum o nosso próximo, é uma razão outra – diferente daquela do amor à verdade atrás da qual corre a transferência – razão que pode apenas impelir o analista a se historisterizar de si mesmo[6].
O que se apresenta ao analista não é o próximo, é outra coisa. É a indiscriminação de uma demanda que nada tem a ver com o encontro com um Samaritano, mas tem a ver com a repetição, ou melhor, com aquilo que, na repetição, é ré-petição, requerimento. De modo que o que se apresenta ao analista tem a ver com aquilo que “demanda o novo”[7] , pois é o encontro faltoso com o real que, em suas sucessivas voltas, o transfinito da demanda não cessa de repetir. Então, é justamente à urgência da demanda, ao requerimento que se reproduz na repetição, que o analista deve dar a satisfação que marca o fim da análise.
Mas como satisfazer esses casos de urgência da demanda? Pelo corte da interpretação, o único capaz de produzir o dizer da demanda a partir do que se reproduz na transferência, dizer que se experimenta no passe com seu efeito de perda. Não há satisfação da urgência sem que se  produza o que Lacan chama em seu resumo do Seminário ou pior... “Um-dizer, por se saber Um-todo-só”[8], sozinho a testemunhar a existência do real. É a esta existência do real que o analista tem o dever de responder.
O discurso do analista é um discurso de urgência em que é o dizer  que socorre. É na medida em que faz corte, e em que seu corte faz passe, em que o dizer socorre, que ele pode socorrer à urgência, culpada que ela é pela indiscriminação de uma demanda.
Toulouse, 23 de fevereiro de 2012.
Tradução: Vera Pollo


[1] LACAN, J. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p.569.
[2] Idem, ibid.
[3] Lacan, J. Outros Escritos. Rio de Janeiro, J.Zahar, p.569.
[4] Jogo de escrita produzido por Lacan, que evoca a primazia da dimensão do sexual [foutre, foutrerie] em detrimento da insignificância [foutaise, fouterie]. Cf. nota de rodapé em Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 315.
[5] Bras.  Jogo em que os parceiro encerram na mão certo número (entre 0 e 3) de moedas ou palitos de fósforo, para depois, um a um, tentarem adivinhar o total. Cf. Novo dicionário Aurélio. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira S. A. , s/d, p.1118.
[6] Outros Escritos, p.568.
[7] O Seminário, livro 11. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1979, p.62.
[8] Outros Escritos, p.548.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Cartéis no FCL-Fortaleza


O cartel é um grupo constituído de três a cinco pessoas, mais uma encarregada da seleção, da discussão e do destino a ser reservado aos trabalhos (mais-um). A existência da Escola depende da existência dos cartéis. Eles são o dispositivo de base da escola, sua porta de entrada.

Novas propostas de cartel podem ser feitas a qualquer momento. Toda pessoa que participa das atividades do FCL-Fortaleza pode lançar uma proposta de Cartel. Lembramos que, na medida que o cartel constitui a porta de entrada na Escola, a efetuação de uma proposta de cartel implica no endereçamento de um vínculo de trabalho à EPFCL – Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano - e ao FCL-Fortaleza. Daí ser sugerido aos proponentes a participação nas atividades do espaço escola, a leitura dos principais textos de Lacan que tratam do cartel e a realização de uma entrevista com o coordenador de cartéis do FCL-Fortaleza.

Para lançar uma nova proposta ou tomar parte de uma já existente, entre em contato com o coordenador de cartéis da EPFCL em Fortaleza  (período 2011-2012), Fabiano Rabêlo, pelo endereço de e-mail do FCL-Fortaleza:  fcl.fortaleza@gmail.com.

Após essa brevíssima resenha sobre a importância do dispositivo do Cartel para a escola de Lacan, tornamos públicas as informações sobre o cartel no FCL-Fortaleza.

Cartéis em funcionamento:

As Psicoses

Início: fevereiro de 2011

Participantes:
Adriana Osterno
Eriton Araújo
Célia Bezerra
Eveline Araújo
Fabiano Rabêlo: Mais-Um

Escrita e Psicanálise

Início: fevereiro de 2012

Participantes:
- Fabiano Rabelo
- Francisco Paiva
- Rafael Pinheiro
- Sandra Mara
- Osvaldo Martins: Mais-Um

Proposta de novos cartéis:

Tema: O Aturdito

- Andrea Rodrigues - Proponente
- Lia Silveira

Tema: A Transferência
- Marcus Eugênio - Proponente

Tema: O Gozo
- Bruna Camarotti (Proponente)

Instruções para inscrição no VII Encontro da IF-EPFCL

VII Encontro da IF-EPFCL
O QUE RESPONDE O PSICANALISTA? ÉTICA E CLÍNICA
6 – 8 Julho de 2012

VALORES DAS INSCRIÇÕES:
R$ 650,00 (inteira)
R$ 380,00 (estudantes de graduação e trabalhadores da saúde, educação e justiça)
R$ 600,00 (estudantes de pós-graduação)
Inscrições no local do evento, Hotel Sofitel-Copacabana: R$ 750,00
Inscrições para a festa (domingo, 8 de julho): R$ 160,00 por convite (somente podem comprar convite aqueles que estiverem inscritos no VII Encontro).

INSTRUÇÕES que facilitam as INSCRIÇÕES

Caros Colegas,
diante de alguns pedidos de maiores instruções para facilitar as inscrições no VII Encontro da IF-EPFCL “O que responde o psicanalista? Ética e clínica”, decidimos divulgar um passo a passo. De todo modo, se ainda permecerem dúvidas sobre como utilizar o site para fazer sua inscrição, não hesite em nos enviar um e-mail para rio2012ifepfcl@gmail.com
PARA COMEÇAR SUA INSCRIÇÃO VOCÊ DEVE ENTRAR NO SITE http://www.rio2012if-epfcl.org.br/
E escolher a língua clicando em “Clique aqui”. Em seguida, escolher, à esquerda da tela, o ítem “inscrições” e clicar nele. Ler com atenção o texto no alto da página que se abrirá:
1º passo: Registrar-se em nosso site através do link abaixo” (você também lerá na sequência o 2o. e o 3o. passo, mas não se ocupe deles neste momento. Ao contrário, clique na frase que lê logo abaixo do 3o. Passo: Clique aqui para começar a sua inscrição.)
Abrir-se-á então uma nova página na tela, que você deverá preencher. Crie um login, ou seja, um nome com o qual o site o identificará, e uma senha, que você poderá lembrar para, no futuro, junto com o login, entrar quantas vezes desejar neste site com sua identificação. Lembre-se de preencher os outros ítens também: seu endereço eletrônico, nome, sobrenome, endereço postal e telefone. No final da página clique em “Criar nova conta”. Isso fará com que abra novamente a página inicial do site. É necessário clicar novamente em “Clique aqui” e depois “inscrições”. Como você acabou de criar um login, você agora já está na página em que escolherá o tipo de inscrição: “inteira” ou “especial”. Como escolher?
INTEIRA: R$ 650,00 é o preço normal da inscrição, válido antes do VII Encontro. No local, esse preço muda para R$ 750,00.
ESPECIAL: há duas modalidades de inscrição especial, conforme abaixo:
R$ 380,00 se for estudante de graduação, trabalhador da saúde, educação ou da justiça;
Se você for estudante de pós-graduação, pagará sua inscrição em dois tempos: 1o. Tempo: igual ao estudante de graduação, pagando R$ 380,00 pelo site, nesse momento; 2o. Tempo: no momento da retirada de suas credenciais no VII Encontro, em que pagará mais R$ 220,00, completando assim o valor total da inscrição do pós-graduando, de R$ 600,00.
Depois que tiver escolhido o tipo de sua inscrição (lembre-se que, no caso da inscrição especial você deverá enviar comprovante que a justifique), clique em “comprar agora”.
Ao clicar sobre esse item, você será direcionado para o site do PayPal – a empresa junto à qual você fará seu pagamento, com seu cartão de crédito, em três vezes sem juros. Este é o
2º passo: Pague de acordo com o tipo de inscrição selecionado. Siga as instruções do Pay Pal. Assim que tiver pago com seu cartão de crédito, receberá uma confirmação do Pay Pal de que pagou e o VII Encontro receberá, por sua vez, um aviso do Pay Pal de ter recebido seu pagamento. Logo que o dinheiro for depositado na conta do VII Encontro, este lhe encaminhará um recibo oficial do pagamento. Caso ainda faltar parte do pagamento (caso das inscrições de pós-graduandos), neste recibo se lerá que deverá completá-lo no momento da entrega de suas credenciais, no Hotel Sofitel, Copacabana, junto à secretaria do evento.
3º passo - somente se você selecionou Inscrição Especial: Enviar uma prova de que você é um estudante de graduação, ou um trabalhador de uma das seguintes áreas: Saúde, Educação ou Justiça, para o e-mail a seguir: rio2012ifepfcl@gmail.com, ou ainda se for estudante de pós-graduação.
Todo aquele que estiver inscrito no VII Encontro tem direito de solicitar reserva de convite para a festa, dia 8 de julho, no Clube Caiçaras. O valor de cada convite é de R$ 160,00. Você poderá pagá-lo até as 12h, na 6a feira, 6 de julho, na secretaria do evento. Temos apenas 40 vagas para a festa.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Seminário do Campo Lacaniano em Fortaleza - junho


Seminário do Campo Lacaniano
O que é a clínica psicanalítica?
A direção do tratamento

Convidada: Maria Anita Carneiro Ribeiro, psicanalista, AME, Fórum do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro.   

Sábado 16/05, a partir das 9h

Local: Shopping Del Paseo, na Avenida Santos Dumont, 3131 –  Auditório Viscaya

Investimento: Para participar de todos os módulos: R$ 140,00 profissional e R$ 70,00 estudante
Para participar de módulos avulsos: R$ 160,00 profissional e R$ 100,00 estudante

Ana Laura Prates - coordenação nacional
Elynes Barros Lima - coordenação local

 


terça-feira, 12 de junho de 2012

VII Encontro IF-EPFCL - Prelúdio 8



O QUE RESPONDE O PSICANALISTA? ÉTICA E CLÍNICA
6 – 9 Julho de 2012


Prelúdio 8: UM TIPO DE AJUDA DIFERENTE

Leonardo RODRIGUEZ
           
“Doutor, o Sr. acha que pode ajudar o meu filho?”
            Se soubesse…
            “Veja, senhora, devo escutar o seu filho antes de poder responder a sua pergunta. Mas, diga-me o que a Sra. fez para ajudá-lo”
            Uma mãe precisa armar-se de coragem para trazer seu filho ao psicanalista: se envergonha de expor sua ferida narcísica, mas de qualquer forma tem coragem suficiente para ir mais além de seu sentimento de humilhação e derrota. Como toda pergunta pertinente, sua pergunta contém uma resposta, ou pelo menos o princípio de uma resposta. Ela deve ter imaginado que eu poderia ajudar o seu filho, caso contrário, para que dar-se o trabalho de trazê-lo? Além do mais, a senhora deve ter refletido acerca das ambigüidades e incertezas que circundam a palavra “ajuda”: tinha levado seu filho a oito profissionais distintos da saúde mental (como se costuma chamá-los). Esses profissionais não proveram nenhuma ajuda, ainda que alguns deles houvessem prometido ser úteis e ajudar. Sua experiência de consultas profissionais múltiplas a levou a dar-se conta de que devia haver uma dimensão ética em seu intento de ajudar o seu filho. Ainda que seu conhecimento da psicanálise e de psicanalistas era muito limitado, pensou que o psicanalista lhe ofereceria não somente um enfoque clinico e “técnico” diferente, mas também uma postura ética distinta. Tinha razão de pensar desta maneira. Além de outras considerações clínicas e psicopatológicas, o caso apresentava explicitamente uma questão ética: o filho, de nove anos de idade, já estava cansado da ajuda “desses idiotas que pensam que eles sabem uma montoeira de coisas, quando não sabem nada de nada”, e havia acrescentado que ele “não queria nenhuma ajuda, não necessitava nenhuma ajuda, e só queria que o deixassem em paz”. O psicanalista Wilfred Bion, famoso no mundo de fala inglesa, sobre cujo trabalho Lacan comentara pouco depois do fim da segunda guerra mundial, conta uma anedota acerca de um paciente que foi procurá-lo em um estado de grande agitação e irradiando medo ao seu redor. Bion lhe disse que não tinha por que preocupar-se, que ali podia sentir-se seguro, já que ele, Bion, não tinha em absoluto a intenção de ajudá-lo.
            A ajuda pode ser perigosa, especialmente nestes tempos em que há tantas indústrias terapêuticas e farmacológicas ansiosamente dispostas a ajudar. Já Freud nos tinha prevenido quanto ao furor sanandis, essa paixão por curar qualquer um a qualquer momento e a qualquer preço, quer o paciente queira esse tipo de tratamento ou não. Este continua sendo para os psicanalistas um problema ético de primeira linha, dado que de acordo com as expectativas culturais o psicanalista é alguém que está para ajudar, e uma vez que gente de todas as idades que vêem nos ver e que eventualmente se convertem em analisantes querem autenticamente ser ajudados. Não há nada errado nisso: pelo contrario, seria realmente muito estranho que o presumível analisante não estivesse absolutamente interessado em receber alguma ajuda; também seria realmente muito estranho que o analista declarasse não estar interessado em ajudar o paciente, se tal declaração refletisse verdadeiramente sua política, que no deve confundir-se com uma intervenção tática à la Bion. Se o fizesse, pronto encerraria seu trabalho, nestes tempos em que a psicanálise é objeto de ataques sinistros, difamatórios e carregados de ódio, e de avaliações pseudo-objetivas de sua eficácia terapêutica, avaliações que chegam à conclusão de que a psicanálise não é de forma alguma útil para o tratamento de estados patológicos e tragédias humanas (definidas estas últimas de acordo com as categorias pseudocientíficas do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV, que pronto será substituído pelo DSM-V, que não promete ser melhor que seu predecessor).
            Mas nossa capacidade de ajudar a outros seres falantes, que não deve ser negada, requer ser questionada no marco desse tratamento do gozo humano que constitui o discurso psicanalítico: questionada como todos os outros ingredientes de nosso campo, o campo lacaniano, o campo do gozo e seus destinos.
                                                                   §


            Nossa resposta é um ato, e enquanto tal deve ser administrada responsavelmente: não é por nada que resposta e responsabilidade    compartilham a etimologia. Como psicanalistas assumimos a responsabilidade de responder a perguntas e demandas que sejam pertinentes; assumimos nossa responsabilidade pelo conteúdo e pelos efeitos de nossa resposta; e também devemos assumir responsabilidade por nossa função de facilitar que outros gerem perguntas e respostas que sejam criativas e construtivas, e também respostas. Em algum de seus escritos Colette Soler diz que os neuróticos estão sempre cheios de perguntas, mas não estão especialmente interessados em obter respostas. E a experiência demonstra que as boas perguntas geram respostas razoáveis.
            Nossas respostas responsáveis dizem respeito às perguntas e demandas colocadas por sujeitos individuais (nossos próximos seres falantes), assim como perguntas e demandas que nos apresenta a vida da cultura, da qual formamos parte, na medida em que existem, todavia pessoas e instituições interessadas no que os psicanalistas possam ter para dizer acerca dos graves problemas subjacentes ao mal estar de nossa cultura, e que chegam a ameaçar sua própria existência. Os autores dos Prelúdios precedentes já se referiram com eloqüência ao desafio que para a psicanálise significam os excessos e perdas de gozo resultantes do capitalismo voraz de nossa época. E é precisamente esta voracidade que ameaça a psicanálise, um dos poucos discursos que, como disse Lacan faz já quarenta anos (em Televisão), é ainda possível.


                                                            §
           
 Em 1932, sob o auspício da Liga das Nações, Sigmund Freud y Albert Einstein intercambiaram correspondência. Einstein foi o primeiro a escrever, e colocou a Freud uma pergunta difícil e imperiosa, uma pergunta que nesses anos sinistros de dominação nazista sobre uma parte do mundo necessitava uma resposta urgente; e é uma pergunta que continua sendo relevante, e tão urgente como sempre: Porque a guerra? Einstein foi ainda mais preciso: “Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça da guerra?” [1] Ainda que tivesse dito a Ernest Jones em particular que para ele a tarefa havia sido “tediosa e estéril”, Freud respondeu a pergunta. Lutando contra suas próprias resistências à tarefa, enquanto homem e criador da psicanálise Freud tentou oferecer uma contribuição orientada pela ética da psicanálise. Sua discussão conceitual do problema e o bosquejo de soluções práticas para lidar com a violência humana conservam sua validade até hoje em dia e ninguém pode dizer que esta resposta de um psicanalista (mesmo se levamos em conta que Freud não é um psicanalista qualquer) se tornou obsoleta depois de oitenta anos, que foram oitenta anos de guerras, sem que se passasse um ano com menos de várias dezenas de guerras em distintos pontos do planeta. Todo ser humano se beneficiaria ao ler e re-ler este texto exemplar de Freud, que não perdeu nada de sua capacidade para inspirar reflexões teóricas e ações concretas; ações que, sem duvida alguma, requerem coragem – o tipo de coragem que uma mãe necessita para levar seu filho ao psicanalista- mas que certamente não são impossíveis.                                                                           


                                                              § 
           
Einstein escolheu a guerra como tema para o intercambio epistolar, e quando foi solicitado a recomendar um interlocutor imediatamente pensou em Freud como a pessoa que teria algo para dizer nessa matéria. Não é seguro que hoje em dia alguém se dirija a um psicanalista com um pedido semelhante, ainda que seja certo que, insisto, Freud não é um psicanalista qualquer. De qualquer forma, em minha opinião o principal problema com que nos enfrentamos é que já não se valoriza a resposta de um psicanalista como antes.            Sem, de formas alguma, ter esgotado as questões envolvidas (já que a vida segue seu curso e nos apresenta novas questões e problemas a cada dia), temos estudado extensamente as respostas que os psicanalistas puderam produzir, e que constituem uma alternativa válida, única e criativa para as respostas da religião, da filosofia especulativa, das distintas ideologias e dos progressos científicos, cada vez mais subordinados aos interesses anárquicos que dominam a fase atual do capitalismo. As respostas que os psicanalistas têm fornecido vão desde aquelas que nosso discurso é capaz de dar a indivíduos que sofrem; aquelas que surgiram no discurso analítico graças ao trabalho dos analisantes que passaram, ou tentaram passar, à posição de analista; aquelas outras que derivam do trabalho com as diversas formas que as estruturas clínicas adotam hoje; até aquelas que correspondem às modalidades múltiplas de decomposição e desarranjo no domínio sociopolítico que são sintomáticas do mal estar na cultura. Se pode julgar estas respostas psicanalíticas e declará-las bem modestas, principalmente se as comparamos com a magnitude e gravidade dos problemas que enfrentamos em todos os planos da vida humana. Mas não se pode descartá-las, como se não tivessem conseqüências, como as forças reacionárias do aparato antipsicoanalítico desejaria.
            “A luta não terminou”, disse Freud próximo ao final de sua vida. Por certo não terminou para nós, e nosso encontro no Rio de Janeiro é uma oportunidade preciosa para nossos Fóruns e nossa Escola: poderemos então comparar nossas experiências, aprender uns com os outros, e brindar uma contribuição ao que nossa comunidade pode fazer para que o psicanalista seja capaz de respostas melhores.

Fevereiro 2012
Tradução de Maria Luisa Rodriguez

[1]                    [1] S. Freud (1933b). ‘Why War?’. Standard Edition 22:197-215.
 

           

domingo, 3 de junho de 2012

VII Encontro IF-EPFCL - Presenças Confirmadas



Sonia Alberti (Presidente), Rosane Melo e Rosanne Grippi (Secretárias) e Maria Helena Martinho (Tesoureira), organizadoras do VII Encontro Internacional “O que responde o psicanalista? Ética e clínica”, e Antonio Quinet (Coordenador da Comissão Científica) têm o prazer de informar que temos em torno de 140 trabalhos inscritos, entre Plenárias, Salas Simultâneas e Pôsteres. Ao lado de muitos outros, são presenças já confirmadas do exterior: 
 
Colette Soler (FR)
Bernard Nominé (FR)
Françoise Gorog (FR)
Jacques Adam (FR)
Luiz Izcovich (FR)
Marc Strauss (FR)
Michel Bousseyroux (FR)
Patrick Valas (FR)
Sidi Askofaré (FR)
Sol Aparicio (FR)
Ana Martinez (ESP)
Joseph Monseny (ESP)
Rithée Cevasco (ESP)
Diego Mautino (IT)
Maria Teresa Maiocchi (IT)
Gabriel Lombardi (AR)
Marcelo Mazzuca (AR)
Mario Brito (CO)
Patricia Muñoz (CO)
Ricardo Rojas (CO)
Leonardo Rodrigues (AU)
Lucile Cognard (BE)
 
Aproveitamos para anunciar que o VII Encontro da IF-EPFCL receberá os colegas da Articulação das Entidades Psicanalíticas, movimento que luta pela psicanálise há mais de dez anos no Brasil, composto por várias instituições de formação psicanalítica no país, para com eles debater o estado da psicanálise no mundo. Para esta mesa já confirmaram presença também: Sol Aparicio (França), Maria Teresa Maiocchi (Itália), Florencia Farias (Argentina). Será coordenada por Sonia Alberti (Brasil).
 
O VII Encontro está sendo realizado sob os auspícios da EPFCL-Brasil, cuja diretoria é composta por Ana Laura Prates, Sandra Berta e Beatriz Oliveira, em associação ao Colegiado Internacional da Garantia da EPFCL cujos secretários são Dominique Fingermann (Brasil) e Albert Nguyên (França) e sob a égide da Internacional dos Fóruns que Jairo Gerbase representa no Brasil.
 
Você que ainda não se inscreveu, não pode ficar de fora desse evento!
Aguardamos sua inscrição no site do VII Encontro (www.rio2012if-epfcl.org.br)