quarta-feira, 28 de março de 2012

Espaço Escola

Convidamos a todos para nossa reunião do Espaço Escola.
Nesta ocasião discutiremos dois textos que compõem os prelúdios do III Encontro Internacional de Escola que aconteceu em 2011 em Paris:
- A tarefa essencial, de Trinindad Sanchez-Biezma de Lander, e
- O passe: final de análise e dispositivo de Escola, de Maria Helena Martinho.
Os textos encontram-se abaixo.
End.: Fórum do Campo Lacaniano
Rua Leonardo Mota, 1394, sala 103 - Aldeota
Sandra Mara N. Dourado - coordenadora do Espaço Escola  


A TAREFA ESSENCIAL
Trinidad Sanchez-Biezma de Lander

Podemos concordar depois de lançar um olhar ao movimento psicanalítico depois de Freud, que a psicanálise parece de um lado rebelde à institucionalização, e por outro que chegar a ser analista é um percurso que necessita da contribuição de muitos. Sem instituição podemos afirmar que não há analistas e tampouco psicanálise.
Toda instituição de psicanálise já se perguntou sobre os procedimentos de seleção, sobre as modalidades do ensino que transmite sobre o que capacita alguém a ser analista. Aqui e ali se deplora o continuísmo que reina e se fazem convocações à criatividade e à invenção. Permanentemente nos surgem as perguntas: por que os espíritos curiosos, por que os jovens investigadores que querem aprender algo novo (como dizia Freud de si mesmo), não vêm a nós?  E que é ensinar a psicanálise hoje em dia? ¿Quando ensinamos o que é da psicanálise? É nos nossos cursos, nossas conferências, nossos seminários, nossas comunicações, nossas exposições, ou será em nossas supervisões, ou ainda nas análises que conduzimos? (S. Askofare 2009).
Lacan diz que uma instituição não é analítica porque inclua entre seus membros didatas que fazem didática, mas sim porque nela tem lugar de fato análises didáticas e justamente a tarefa essencial da instituição é esclarecer, dizer como, de que forma se chegou ao fim dessas análises.
Tarefa essencial de que em seu seio tenham lugar de fato análises que resultam didáticas, única maneira de poder situar a psicanálise em relação com a ordem das ciências, mas também, para que as velhas estruturas hierárquicas possam ser substituídas por outras cujo funcionamento está centrado em torno do esclarecimento do que se produz no curso de uma análise, principalmente no que diz respeito à transição de analisante a analista.
É que fazer Escola tendo em jogo a transmissão é produzir um discurso de psicanálise em psicanálise. O que faz Escola não é o que a Escola produz no melhor estilo universitário, ou seja, não é aquilo que se repete porque está fascinada, não é esse material que a obtura porque a seduz e que como a moda, muda com a estação. O que faz Escola é a transmissão do que se faz na Escola, esse é seu destino.
Sabemos que para exercer a psicanálise é preciso ter passado pela experiência. A análise traça um caminho, um percurso necessário a transitar para que, aquele que entrou como analisante saia como analista (não - todos). Um percurso que se define pelo fato de que em seu momento nasce um desejo: o de retomar no nível do inconsciente de outro a experiência levada a cabo com o próprio inconsciente. E assim o desejo do analista é esse lugar do qual se está fora sem pensá-lo, mas desde estar nele, é ter saído de verdade, ou seja, não ter tomado esta saída senão como entrada; no entanto não é qualquer uma porque é a via do psicanalisante. (J.Lacan 1967).
Porque outra coisa se pode transmitir se não pelo testemunho de um desejo ancorado em uma experiência. O que o ato de transmissão põe em jogo não é um atropelo, mas antes um desejo, não é uma transgressão, mas esse conflito permanente entre a lei e a vida, sobre o qual já escrevia Kant, e que faz do homem um sujeito ético. O que se transmite é algo que não é palavra, é essa singularidade da palavra, ou seja aquilo que a funda e que por sua vez é indizível.
Enquanto que Freud mantém uma série interrogações sobre o caráter interminável da análise, e inclusive formula a necessidade de recomeçá-lo naqueles que se dedicam à prática psicanalítica, Lacan se decide a conceber a experiência como um itinerário que chega ao seu fim, um fim que não é arbitrário nem exterior à própria experiência, mas que brota como resultado dela, em uma conjuntura que essa dita experiência deve permitir localizar, e inclusive, transmitir. Um fim, além do mais, que não se resolve em uma totalidade que se realiza a si mesma.
A condição de sobrevivência da psicanálise e a garantia de que a Escola não se converta em um conservatório, é a capacidade de transmissão que comporta. Transmissão que cristaliza nas articulações do impossível de analisar, aí Lacan inventa o passe, dispositivo que mobiliza no sujeito em jogo o desejo justo, no ponto em que o amor não sustenta mais o impossível que insiste mais além. Mais além do muro do amor, só há o real. Trata-se de como arriscar-se da boa maneira para que haja analista, essa é a aposta.
Então, a formação dos analistas não requer uma organização onde desapareçam as diferenças entre as funções ou as responsabilidades a cargo de uns e de outros. Requer uma organização não direi onde isso fale, mas onde possa falar o sujeito que se considera advindo aí onde isso estava. Não existe, portanto formação psicanalítica possível, ali onde a instituição não cede a palavra a quem queira tomá-la para relatar seu nascimento a partir do que era sem sabê-lo. Por isso e não por outras razões Lacan inventa o passe. Dispositivo que permite não fixar o saber em uma doutrina, a fim de permitir que se desdobrem as invenções do inconsciente; de permitir testemunhar a cada um da verdade mentirosa, deixando aos cartéis a tarefa de reconhecer as condições de possibilidade do ato analítico que o passante não pode enunciar em termos de verdade. (C.Soler 2009).
Fazer escola não deve confundir-se então com proselitismo. Esse chamado ao outro não está dirigido a convencê-lo nem a filiá-lo a uma causa, mas a solicitar sua singularidade para arrancar ao real um resto de saber a mais.

Tradução de Maria Luisa Rodriguez Sant’Ana

Referencias bibliograficas
-S. Askofare 2010. Enseñanza del psicoanálisis ¿Cuáles son sus fines y sus efectos. Wunsch 8.
-J. Lacan 1967. Discurso a la EFP. Anuario de la Escuela.
-C Soler 2009. Las condiciones del acto ¿Cómo reconocerlas? Wunsch 8.

O PASSE: FINAL DE ANÁLISE E DISPOSITIVO DE ESCOLA
Maria Helena Martinho
Em 21 de junho de 1964, Lacan funda a Escola Freudiana de Paris (EFP). Três anos depois, na “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”, Lacan ratifica os ensinamentos de Freud sobre o início de uma análise: “no começo da psicanálise está a transferência”[1] e indica o que está no final: “o que eu chamei de fim da partida, o término da psicanálise é, com efeito, a passagem do psicanalisante a psicanalista”[2]. Foi, justamente, a essa passagem de analisante a analista – correlata ao ato analítico – que se dá no final de uma análise, que Lacan chamou de passe. Mas como se dá essa passagem? “Quando, havendo-se resolvido o desejo que sustentara em sua operação o psicanalisante, ele não mais tem vontade, no fim, de levantar sua opção, isto é, o resto que como determinante de sua divisão, o faz decair de sua fantasia e o destitui como sujeito”[3].
 A passagem de psicanalisante a psicanalista “tem uma porta cuja dobradiça é o resto que constitui entre eles, porque essa divisão não é outra senão a do sujeito, da qual esse resto é a causa”[4]. É, justamente, nessa “reviravolta em que o sujeito vê soçobrar a segurança que extraía da fantasia em que se constitui, para cada um, sua janela para o real, o que se percebe é que a apreensão do desejo não é outra senão a de um des-ser[5].
Na porta de passagem, o analista, sujeito suposto saber, cai e perde a sua consistência como ser. “Nesse des-ser revela-se o inessencial do sujeito suposto saber, donde o futuro psicanalista entrega-se ao agalma da essência do desejo, disposto a pagar por ele em se reduzindo, ele e seu nome, ao significante qualquer”[6].
Em 1967, Lacan propõe que esse momento de final de análise, de passagem de analisante a analista, poderia ser verificado através de um dispositivo de Escola, ao qual ele também nomeou de passe. Na sua “Proposição...”, Lacan enuncia um princípio: “o psicanalista só se autoriza por si mesmo. Esse princípio está inscrito nos textos originais da Escola e decide sua posição. Isso não impede que a Escola garanta que um analista depende de sua formação. Ela pode fazê-lo, por sua própria iniciativa. E o analista pode querer essa garantia, o que, por conseguinte, só faz ir mais além: tornar-se responsável pelo progresso da Escola, tornar-se psicanalista da própria experiência”[7].
A garantia da Escola se funda em um princípio que apenas constata que o analista iniciante não pede a autorização a ninguém para começar a atender seus pacientes, nem mesmo ao seu analista. Ele não precisa ser autorizado, ele se autoriza por si mesmo. A Escola de Lacan, ao contrário das Sociedades da IPA, não autoriza nenhum analista a exercer a psicanálise. Contudo, indica Lacan, ela deve poder garantir que tal analista tenha feito a sua formação.
 Em 1973, em uma carta endereçada a três psicanalistas italianos – publicada sob o título “Nota italiana” – Lacan retomou seu aforismo “o psicanalista só se autoriza por si mesmo” – enunciado na “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola” – para ressaltar que “autorizar-se por si mesmo” não implica que qualquer um seja analista, pois “autorizar-se não é autorri(tuali)zar-se [...]. Não-todo ser falante pode autorizar-se a produzir um analista [...] Somente um analista, ou seja, não qualquer um, autoriza-se apenas de si mesmo”[8]. Nessa carta, Lacan chegou a propor a constituição de uma Escola de AE, cujo acesso fosse possibilitado pelo dispositivo do passe, mesmo que o risco fosse não constituir a Escola: “o grupo italiano, se quiser me dar ouvidos, se restringirá a nomear os que nele postularem sua entrada segundo o princípio do passe, correndo o risco de que não o haja”[9]. Esse projeto jamais foi realizado, mas deixou a indicação de que a autorização que o próprio analista se dá em praticar a psicanálise não dispensa a verificação que pode ser feita no dispositivo do passe.
Em O Seminário, livro 21: os não-tolos erram (1973-1974), contemporâneo a carta aos italianos, Lacan retomou seu aforismo de 1967, para indicar que essa fórmula precisava receber alguns complementos: “o psicanalista só se autoriza por si mesmo, não quer dizer, entretanto, que seja ele sozinho a decidi-lo [...], se seguramente não se pode ser nomeado psicanalista, isso não quer dizer que não importa quem possa entrar aí dentro como um rinoceronte na porcelana”[10]. “Essa autoautorização não é autista, pois se situa no laço social que a Escola constitui [...]. A autoautorização vai de par com a garantia pela Escola”[11].
Dois anos depois, no “Prefácio à edição inglesa do Seminário 11” (1976), Lacan se refere ao dispositivo do passe como uma “historisterização da análise”: “eu designei por passe essa verificação da historisterização, abstendo-me de impor esse passe a todos, porque não há no caso, mas esparsos disparatados. Deixei-o à disposição daqueles que se arriscam a testemunhar da melhor maneira possível sobre a verdade mentirosa”[12]. Aqui, Lacan retoma a sua proposta inicial de que o dispositivo do passe não deve ser imposto aos analistas de Escola. Cada analista deverá decidir se deseja “arriscar-se” a dar o testemunho de sua análise.  
Nesse texto, Lacan inventa uma nova proposição: “o analista só se historisteriza [hystorise] por si mesmo”. Esta proposição aponta para o fato de que é o próprio analista que decide dar o depoimento de sua análise através do dispositivo do passe. Assim como, é ele mesmo, e não um outro qualquer, que conta a sua verdade, cuja a estrutura é sempre de ficção. “O analista só se historisteriza [hystorise] por si mesmo – fato patente –, mesmo quando se faz confirmar por uma hierarquia”[13]. A autorização que o próprio analista se dá pode ser confirmada pela garantia da Escola. Autorizar-se por si mesmo como analista não significa prescindir da Escola.
Nesse mesmo ano, em O Seminário, livro 24: L’Insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre (1976-1977), Lacan propõe que o final de análise seria a identificação com o sinthoma; um saber lidar (savoir y faire) com seu sinthoma: “a questão da identificação tem muito interesse, porque a partir de algumas afirmações resultaria que o fim de análise seria identificar-se ao analista. Eu, pessoalmente, não penso assim, porém é isso que Balint sustenta e isso é muito surpreendente. Ao que a gente se identifica no final da análise? Seria ou não identificar-se, tomando suas garantias de uma espécie de distância do seu sintoma? [...] Saber lidar com seu sinthoma, é isso o final de análise”[14].
Vale lembrar que o sintoma, da entrada em análise definido por Lacan como metáfora, concebido como efeito de estrutura, responde à questão do inconsciente estruturado como uma linguagem. É uma mensagem cifrada, lida em termos de traços que se deixa traduzir, interpretar. Já o sinthoma com “th”, é o sinthoma do final de análise, sustentado na letra na escrita do nó borromeano, este surge com outra envoltura formal e faz mostração do real, ultrapassa os limites do significante e enuncia a ex-sistência, o não cessa de não se escrever, o real da estrutura. Enquanto o sintoma no campo da linguagem é uma metáfora que contém uma mensagem vinda do Outro, da outra cena, do inconsciente, o sinthoma no campo do gozo é definido por Lacan como a letter a litter – letra-resto-lixo –, aquilo que não diz nada para ninguém, não é uma mensagem cifrada a qual pode ser dissolvida graças à interpretação; o sinthoma do final de análise é uma cifra de gozo que escreve o irredutível da estrutura. No final da análise, o sujeito dá por esgotadas as interpretações, identifica-se com o sinthoma, impossível de interpretar e, trata de aceitar a maneira de gozar de seu inconsciente, mantendo uma certa distância do gozo, “sabendo lidar” com ele.
Lacan procurou descrever o que pode ocorrer no final de análise – no início de seu ensino, enfatizou a travessia da fantasia; no final, a identificação com o sinthoma – mas, em nenhum momento indicou uma padronização da passagem de analisante a analista. O dispositivo do passe foi inventado não somente para autenticar o passe experimentado na análise, mas, especialmente, para colher novas descobertas no singular de cada caso e produzir um saber sobre essa passagem.

 

 
[1] LACAN, J. (1967). “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2003, p.247.
[2] Ibidem, p. 257.
[3] Ibidem, p. 257.
[4] Ibidem, p. 259.
[5] Ibidem, p. 259.
[6] Ibidem, p. 259.
[7] Ibidem, p. 248.
[8]LACAN, J.. (1973). “Nota italiana”. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2003, p. 312.
[9] Ibidem, p. 307.
[10]LACAN, J. (1973-1974). O Seminário, livro 21: les non-dupes errent, inédito, lição de 09/04/1974.
[11 QUINET, A. A Estranheza da Psicanálise: a Escola de Lacan e seus analistas. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2009, p.114.
[12] LACAN. J. (1976). “Prefácio à edição inglesa do Seminário 11”. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2003, p. 569.
[13] Ibidem, p. 568.
[14]LACAN, J. (1976-1977). O Seminário, livro 24: L’Insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre, lição de 16/11/76.

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