PRELÚDIO 2 | ||||||||||||||||||||||
| INTERPRETAÇÃO: ARTE POÉTICA DO SIGNIFICANTE À LETRA | ||||||||||||||||||||||
| Andréa Fernandes | ||||||||||||||||||||||
| A interpretação na psicanálise convoca certa arte poética, tanto do analisando como do analista, para lidar com o que do inconsciente insiste e não cessa de não se escrever. Em “Escritores Criativos e Devaneios” (1908), Freud aproxima a literatura, em especial a poesia, ao brincar infantil, à fantasia e ao sintoma, formas que têm, em comum, o fato de traçarem o gozo da letra, do Um, com o gozo do sentido, através do equivoco. No Seminário 24,L’insu que sait de l’une-bévues’aile à mourre, Lacan (1977) retoma o equívoco para dizer que Freud se interessou pelas formações do inconsciente – sonhos, atos falhos, chistes e sintomas – por estarem ligadas a uma “coisa específica que comporta a aquisição da língua”. De acordo com Lacan, Freud, no Entwurf, trata disso através dos traços mnêmicos, que nada mais são do que a significantização do que é irrepresentável de das Ding. Mais uma vez, a poesia é trazida à baila, admitindo Lacan que “o próprio da poesia é ter somente uma significação”, porém “a significação não é o que qualquer um crê. É uma palavra vazia”. Neste sentido, a poesia mostra que “a vontade de sentido consiste em eliminar o duplo sentido”, interpretação cuja lógica, desde Freud, é convidada a ser aplicada na psicanálise. Em A Interpretação dos Sonhos, Freud apontou para o umbigo do sonho, ilustração do ininterpretável formalizado por Lacan, como o que do real faz furo no simbólico. O inconsciente estruturado como uma linguagem apresenta uma escrita furada impossível de ser reconstruída completamente. Em 1900, Freud constrói os fundamentos da lógica da interpretação na psicanálise, descrevendo os sonhos e os chistes como uma escritura pictográfica destinada a se transformar num “enigma figurado” ou rébus, através da associação livre. A homofonia própria ao rébus mostra a letra como suporte material do significante da Verwerfung primordial, do significante da falta no Outro, S(Ⱥ). No ensino de Lacan, nos anos cinquenta, a letra constitui suporte material do significante, passando, em seguida, em Lituraterra, já nos anos setenta, a algo que desenha “a borda do furo no saber”. Com isso, a interpretação na psicanálise buscará cada vez mais as homofonias e polifonias dos termos, e cada vez menos o sentido. Esta orientação é dada por Lacan numa das conferências na Universidade de Yale (1975), em que se recomenda ao analista “deixar-se guiar pelos termos verbais”. Propomos aqui aproximar a expressão “termos verbais” do significante fora da cadeia, fora sentido, “que soa em francês essaim (em homofonia a S1), um enxame significante, um enxame que zumbe” e “que garante uma unidade de copulação do sujeito com o saber” – S1(S1(S1 →S2))). Entretanto, o sujeito não advirá em S2, adverte Lacan, uma vez que “os efeitos de alíngua que já estão lá como saber, vão bem mais longe de tudo que o ser falante é suscetível de enunciar”, e o saber em jogo ultrapassa o sujeito. Logo, é pela lógica própria à interpretação, desde Freud, que o discurso psicanalítico “toca no real, ao reencontrá-lo como impossível” (Aturdito, 1973). Daí porque a estrutura da interpretação, o saber no lugar da verdade, só pode agir ao não visar o sentido ou o objeto, mas sim a causa do desejo. Em função da escrita furada do inconsciente tomada “ao pé da letra”, a psicanálise invoca no furo o gozo próprio ao sintoma. Joyce serve de paradigma ao utilizar uma verdadeira “ars poetica” (Freud, 1908), ao tratar o puro gozo da letra fora sentido. A escrita de Joyce aponta para um savoir-faire artístico, uma escrita na qual a letra, separada do sentido, deixa subsistir o afeto de enigma próprio ao ininterpretável, enigma do qual o analista fará uso pelo seu desejo advertido. A escrita de Joyce interessará a Lacan (1977), na medida em que ilustra a possibilidade de a psicanálise intervir simbolicamente no sintoma, através da interpretação, para “dissolvê-lo no real”, já que a letra do sintoma termina com a elucubração de saber própria ao sujeito, em função do inconsciente ser estruturado como uma alíngua. É justo o ponto até onde vai Joyce, onde não há mais chiste no jogo da língua com a letra, ponto que mostramos ter interessado a Freud na aproximação que fez entre as formações do inconsciente e a literatura, em especial, a poesia. Por fim, a interpretação psicanalítica está articulada ao que se transmite numa psicanálise. Sabemos que Freud recebeu o “Prêmio Goethe”, conferido àqueles “cuja obra criadora fosse digna de uma honra dedicada à memória de Goethe”. Para Freud (1930), “Goethe, como poeta, não foi apenas um grande revelador de si mesmo, mas também, a despeito da abundância de registros autobiográficos, um cuidadoso ocultador de si mesmo”. Para concluir, podemos dizer que a ars poetica é utilizada pelos escritores (Freud, 1908) para trazer a público a letra separada do sentido, apontando para umsavoir-faire artístico, que diz respeito a um saber-fazer com o ininterpretável próprio à escrita furada do inconsciente, real de que se ocupa a psicanálise. Pelo exposto, o tema da interpretação é de fundamental importância para a psicanálise e a ele iremos nos dedicar durante três dias de trabalho no Encontro Nacional da EPFCL em Salvador-Bahia. NORMAS PARA ENVIO DE PROPOSTAS DE TRABALHO Os interessados em apresentar trabalhos deverão encaminhar o argumento junto com o comprovante do depósito bancário para o e-mail comissaocientifica2011@gmail.com, de acordo com as seguintes instruções: • Texto em arquivo formato Word versão 2003 ou superior, contendo duas páginas; 1. Folha de rosto com o título do trabalho, nome completo do autor, sua instituição, formação e e-mail; 2. Folha do argumento apenas com o título do trabalho e o resumo, contendo a contextualização do tema e objetivo do trabalho, deve limitar-se a 2000 caracteres. • Envio do argumento até 31 de julho; O resultado da seleção dos resumos será divulgado até o dia 19 de setembro e os autores cujos trabalhos tiverem sido selecionados terão até 15 de outubro para enviar o texto completo para comissaocientifica2011@gmail.com. A versão definitiva só será aceita com 6 (seis) laudas, em espaço duplo, letra 12. SUGESTÃO DE TEMAS A SEREM DESENVOLVIDOS • A interpretação dos sonhos; • Interpretação e transferência; • Interpretação e construção em análise; • A função e os efeitos da interpretação; • A função do silêncio; • Interpretação e equívoco; • Citação, enigma, pontuação, corte e retificação subjetiva; • O dito e o dizer na interpretação; • Dizer modal e dizer apofântico; • A interpretação nos discursos; • A interpretação no discurso do psicanalista: a∕S2; • Interpretação e alíngua; • A interpretação e a letra; • A dimensão simbólica e real da interpretação; • Interpretação e poesia; • A Interpretação na clínica com psicótico; • A interpretação na clínica com criança; • A interpretação na psicanálise aplicada. PROPOSTAS DE TRABALHO PARA O ESPAÇO ESCOLA Esta modalidade é aberta a todos os participantes de CARTÉIS inscritos na Escola, assim como aos membros da EPFCL-Brasil. O resumo do trabalho deve ter entre 8 a 15 linhas, letra 12, especificando tratar-se de trabalho de cartel ou trabalho sobre questões da Escola. Enviar até o dia 19 de setembro. | ||||||||||||||||||||||
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| FICHA DE INSCRIÇÃO | ||||||||||||||||||||||
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quarta-feira, 20 de julho de 2011
Boletim Informativo do XII Encontro Nacional da EPFCL-Brasil e Prelúdio n.2
terça-feira, 19 de julho de 2011
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Brevidades sobre o sintoma
Passemos então , a discorrer brevemente sobre os caminhos trilhados pela teoria do sintoma , em Lacan. No inicio de seu ensino , o sintoma era metáfora , enigma , que uma vez desvendado, tinha efeito de verdade . Em "Função e campo da fala e da linguagem" , embora ele diga, literalmente , que , "está perfeitamente claro que o sintoma , por ser pleno de sentido , e se resolve por inteiro numa análise", já faz notar a coexistência, no sintoma , do simbólico e do real : "o sintoma é símbolo inscrito na areia da carne e no véu de Maia". O sintoma enquanto símbolo "inscrito" pertence ao campo do simbólico, mas "escrito" sob o véu de Maia , não estaria também no campo do real ? A titulo de esclarecimento, a expressão "Véu de Maia" , é usada pelos orientais para dizer que “ver algo sob o véu de Maia faz também existir o que não existe", tamponando assim, a incompletude tão angustiante para o sujeito . Sem ele , sem o véu de Maia , constata-se rapidamente o “nada ”. Em RSI Lacan confirma isso ao afirmar que já estava na idéia do “Discurso de Roma” que o inconsciente ex-siste, que ele condiciona o Real .
A partir do inicio da década de 1970 Lacan se afasta do pensamento estruturalista, onde o simbólico detinha primazia nas estruturas clinicas, para trabalhar com a perspectiva de uma equivalência entre os três registros , e a estrutura do sujeito passa a ser determinada , pela forma de enlaçamento do simbólico, do imaginário e do real : RSI, SIR, IRS .
"O Real , eu inventei", diz Lacan. "E eu o escrevo sob a forma do nó borromeano, que não é um nó, mas uma cadeia. "Quando ele distingue "cadeia" de "nó" , ele quer dizer que a estrutura do sujeito é um encadeamento dos três registros , retirando a prevalência de um sobre o outro . A qualidade de ser uma verdadeira cadeia borromeana é o fato de RSI serem enodados, pelo Nome-do-Pai. Para manter a consistência do Nome-do-Pai nessa nova forma de escrever a estrutura do sujeito ele cria um quarto elemento na escrita do nó para ali situá-lo, e dá-lhe o nome de Sinthoma (th).
Ao introduzir a teoria dos nós na segunda parte do seu ensino , o "discurso" cede lugar à escrita . Enquanto no primeiro se privilegiava a produção de sentido , na escrita o que prevalece é o sem-sentido. Isso traz mudanças cruciais no manejo da transferência, pois Lacan alerta que “o efeito de sentido a se exigir do discurso analítico não é imaginário , não é também simbólico; é preciso que seja real ”. A assertiva anterior de que o simbólico faz furo no real , sofre uma torsão e agora , é o real que faz furo no simbólico. Há um gozo no significante irredutível à significação. Na clinica, não se trata mais apenas de escuta , mas do que se "lê no que se escuta" .
A teoria dos nós constitui a ultima elaboração de Lacan sobre o sintoma , chegando à escrita do inconsciente por meio da cadeia borromeana. Nela o sinthome surge como o quarto elemento , que ao enlaçar os três registros - agora equivalentes entre si – produz uma cadeia bo, e como nos lembra Lacan, “se há equivalência , não há relação ”. À falta de relação sexual , o sujeito responde com o sinthome: Cito: “ Sinthoma é a resposta que o sujeito encontra frente ao gozo da falta de relação sexual ”.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Stylus Revista de Psicanálise - volumes disponíveis para aquisição
stylus
revista de psicanálise
Stylus é a publicação semestral da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano - EPFCL-Brasil. Tem como propósito promover o debate a respeito da psicanálise e suas conexões com os outros discursos.
Em circulação desde o ano 2000, veicula artigos de integrantes das comunidades brasileira e internacional do Campo Lacaniano, bem como de outros colegas que orientam sua leitura da psicanálise principalmente pelos textos de Sigmund Freud e Jacques Lacan.
Também apresenta artigos provenientes de outros campos de saber (arte, ciência, matemática, filosofia, topologia, linguística, música, literatura, etc.) que tomam a psicanálise como eixo de suas conexões reflexivas.
22. A política do sintoma I - maio 2011
21. Corpo e Inconsciente II - dezembro 2010
20. Corpo e inconsciente - abril 2010
19. Alíngua e o Inconsciente real - outubro 2009
18. O tempo na psicanálise II - abril 2009
17. O tempo na Psicanálise - novembro 2008
16. Família e inconsciente II - maio 2008
15. Família e inconsciente - novembro 2007
14. Amor, desejo e gozo - abril 2007
13. Gozo: modalidades e paradoxos - outubro 2006
12. De que escolhas e impasses padece o sujeito? - abril 2006
11. As escolhas do sujeito no sexo, na vida e na morte - outubro 2005
10. Saber-fazer com o real da clínica - abril 2005
09. Trauma e fantasia - outubro 2004
08. Sujeito e gozo - abril 2004
07. Versões da práxis psicanalítica - outubro 2003
06. Angústia e sintoma - abril 2003
05. O real da clínica - outubro 2002
04. O que se espera de um psicanalista? - abril 2002 (esgotada)*
03. Lacan no século - outubro 2001
02. Escola: tempo de elaboração - outubro 2000 (esgotada)*
01. O passe: uma experiência brasileira - abril 2000
*disponíveis para consulta nas bibliotecas dos Fóruns do Campo Lacaniano.
Vendas e outras informações nos Fóruns do Campo Lacaniano
ou pelo e-mail:
revistastylus@yahoo.com.br
Por favor, informe no e-mail:
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Endereço:
Email e telefone para contato:
Volumes solicitados:
Vendas condicionadas à disponibilidade de exemplares no acervo dos Fóruns do Campo Lacaniano, seguindo a ordem de chegada dos pedidos.
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Stylus é a publicação semestral da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano - EPFCL-Brasil. Tem como propósito promover o debate a respeito da psicanálise e suas conexões com os outros discursos.
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Também apresenta artigos provenientes de outros campos de saber (arte, ciência, matemática, filosofia, topologia, linguística, música, literatura, etc.) que tomam a psicanálise como eixo de suas conexões reflexivas.
Volumes publicados
22. A política do sintoma I - maio 2011
21. Corpo e Inconsciente II - dezembro 2010
20. Corpo e inconsciente - abril 2010
19. Alíngua e o Inconsciente real - outubro 2009
18. O tempo na psicanálise II - abril 2009
17. O tempo na Psicanálise - novembro 2008
16. Família e inconsciente II - maio 2008
15. Família e inconsciente - novembro 2007
14. Amor, desejo e gozo - abril 2007
13. Gozo: modalidades e paradoxos - outubro 2006
12. De que escolhas e impasses padece o sujeito? - abril 2006
11. As escolhas do sujeito no sexo, na vida e na morte - outubro 2005
10. Saber-fazer com o real da clínica - abril 2005
09. Trauma e fantasia - outubro 2004
08. Sujeito e gozo - abril 2004
07. Versões da práxis psicanalítica - outubro 2003
06. Angústia e sintoma - abril 2003
05. O real da clínica - outubro 2002
04. O que se espera de um psicanalista? - abril 2002 (esgotada)*
03. Lacan no século - outubro 2001
02. Escola: tempo de elaboração - outubro 2000 (esgotada)*
01. O passe: uma experiência brasileira - abril 2000
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números 01 ao 19: R$ 20,00 + taxa de correios
números 20 em diante: R$ 30,00 + taxa de correios
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domingo, 10 de julho de 2011
O GATO SOU EU
Apesar de ter sido forjado por Freud em 1910, o conceito de contratransferência não foi muito desenvolvido por ele. No princípio, essa idéia dizia respeito a impasses no tratamento devido a falhas na neutralidade do analista, "ruído" na "comunicação entre inconscientes" ou questões do tipo para, a partir das décadas de 40 e 50, servir como operador na interpretação. Lacan, no seminário sobre "Os escritos técnicos de Freud", afirma que ela é função do ego do analista, o que ele chamou de soma dos preconceitos do analista.
A crônica a seguir, de autoria de Fernando Sabino, é um exemplo primoroso daquilo que Lacan critica nos pós-freudianos. Poderia perfeitamente se chamar "Como não conduzir uma análise". Como sempre, o artista mostra muito melhor que nós aquilo de que a teoria tenta dar conta.
O GATO SOU EU
Fernando Sabino
Aí então, eu sonhei que tinha acordado. Mas continuei dormindo.
- Continuou dormindo.
- Continuei dormindo e sonhando. Sonhei que estava acordado na cama, e ao lado, sentado na cadeira, tinha um gato me olhando.
- Que espécie de gato?
- Não sei. Um gato. Não entendo de gatos. Acho que era um gato preto. Só sei que me olhava com aqueles olhos parados de gato.
- A que você associa essa imagem?
- Não era uma imagem: era um gato.
- Estou dizendo a imagem do seu sonho: essa criação onírica simboliza uma profunda vivência interior. É uma projeção do seu subconsciente. A que você associa ela?
- Associo a um gato.
- Eu sei: aparentemente se trata de um gato. Mas na realidade o gato, no caso, é a representação de alguém. Alguém que lhe inspira um temor reverencial. Alguém que a seu ver está buscando desvendar o seu mais íntimo segredo. Quem pode ser essa alguém, me diga? Você deitado aí nesse divã como na cama em seu sonho, eu aqui nesta poltrona, o gato na cadeira… Evidentemente esse gato sou eu.
- Essa não, doutor. A ser alguém, neste caso o gato sou eu.
- Você está enganado. E o mais curioso é que, ao mesmo tempo, está certo, certíssimo, no sentido em que tudo o que se sonha não passa de uma projeção do eu.
- Uma projeção do senhor?
- Não: uma projeção do eu. O eu, no caso, é você.
- Eu sou o senhor? Qual é, doutor? Está querendo me confundir a cabeça ainda mais? Eu sou eu, o senhor é o senhor, e estamos conversados.
- Eu sei: eu sou eu, você é você. Nem eu iria pôr em dúvida uma coisa dessas, mais do que evidente. Não é isso que eu estou dizendo. Quando falo no eu, não estou falando em mim, por favor, entenda.
- Em quem o senhor está falando?
- Estou falando na individualidade do ser, que se projeta em símbolos oníricos. Dos quais o gato do seu sonho é um perfeito exemplo. E o papel que você atribui ao gato, de fiscalizá-lo o tempo todo, sem tirar os olhos de você, é o mesmo que atribui a mim. Por isso é que eu digo que o gato sou eu.
- Absolutamente. O senhor vai me desculpar, doutor, mas o gato sou eu, e disto não abro mão.
- Vamos analisar essa sua resistência em admitir que eu seja o gato.
- Então vamos começar pela sua insistência em querer ser o gato. Afinal de contas, de quem é o sonho: meu ou seu?
- Seu. Quanto a isto, não há a menor dúvida.
- Pois então? Sendo assim, não há também a menor dúvida de que o gato sou eu, não é mesmo?
- Aí é que você se engana. O gato é você, na sua opinião. E sua opinião é suspeita, porque formulada pelo consciente. Ao passo que, no subconsciente, o gato é uma representação do que significo para você. Portanto, insisto em dizer: o gato sou eu.
- E eu insisto em dizer: não é.
- Sou.
- Não é. O senhor por favor saia do meu gato, que senão eu não volto mais aqui.
- Observe como inconscientemente você está rejeitando minha interferência na sua vida através de uma chantagem…
- Que é que há, doutor? Está me chamando de chantagista?
- É um modo de dizer. Não vai nisso nenhuma ofensa. Quero me referir à sua recusa de que eu participe de sua vida, mesmo num sonho, na forma de um gato.
- Pois se o gato sou eu! Daqui a pouco o senhor vai querer cobrar consulta até dentro do meu sonho.
- Olhe aí, não estou dizendo? Olhe a sua reação: isso é a sua maneira de me agredir. Não posso cobrar consulta dentro do seu sonho enquanto eu assumir nele a forma de um gato.
- Já disse que o gato sou eu!
- Sou eu!
- Ponha-se para fora do meu gato!
- Ponha-se para fora daqui!
- Sou eu!
- Eu!
- Eu! Eu!
- Eu! Eu! Eu
A crônica a seguir, de autoria de Fernando Sabino, é um exemplo primoroso daquilo que Lacan critica nos pós-freudianos. Poderia perfeitamente se chamar "Como não conduzir uma análise". Como sempre, o artista mostra muito melhor que nós aquilo de que a teoria tenta dar conta.
O GATO SOU EU
Fernando Sabino
Aí então, eu sonhei que tinha acordado. Mas continuei dormindo.
- Continuou dormindo.
- Continuei dormindo e sonhando. Sonhei que estava acordado na cama, e ao lado, sentado na cadeira, tinha um gato me olhando.
- Que espécie de gato?
- Não sei. Um gato. Não entendo de gatos. Acho que era um gato preto. Só sei que me olhava com aqueles olhos parados de gato.
- A que você associa essa imagem?
- Não era uma imagem: era um gato.
- Estou dizendo a imagem do seu sonho: essa criação onírica simboliza uma profunda vivência interior. É uma projeção do seu subconsciente. A que você associa ela?
- Associo a um gato.
- Eu sei: aparentemente se trata de um gato. Mas na realidade o gato, no caso, é a representação de alguém. Alguém que lhe inspira um temor reverencial. Alguém que a seu ver está buscando desvendar o seu mais íntimo segredo. Quem pode ser essa alguém, me diga? Você deitado aí nesse divã como na cama em seu sonho, eu aqui nesta poltrona, o gato na cadeira… Evidentemente esse gato sou eu.
- Essa não, doutor. A ser alguém, neste caso o gato sou eu.
- Você está enganado. E o mais curioso é que, ao mesmo tempo, está certo, certíssimo, no sentido em que tudo o que se sonha não passa de uma projeção do eu.
- Uma projeção do senhor?
- Não: uma projeção do eu. O eu, no caso, é você.
- Eu sou o senhor? Qual é, doutor? Está querendo me confundir a cabeça ainda mais? Eu sou eu, o senhor é o senhor, e estamos conversados.
- Eu sei: eu sou eu, você é você. Nem eu iria pôr em dúvida uma coisa dessas, mais do que evidente. Não é isso que eu estou dizendo. Quando falo no eu, não estou falando em mim, por favor, entenda.
- Em quem o senhor está falando?
- Estou falando na individualidade do ser, que se projeta em símbolos oníricos. Dos quais o gato do seu sonho é um perfeito exemplo. E o papel que você atribui ao gato, de fiscalizá-lo o tempo todo, sem tirar os olhos de você, é o mesmo que atribui a mim. Por isso é que eu digo que o gato sou eu.
- Absolutamente. O senhor vai me desculpar, doutor, mas o gato sou eu, e disto não abro mão.
- Vamos analisar essa sua resistência em admitir que eu seja o gato.
- Então vamos começar pela sua insistência em querer ser o gato. Afinal de contas, de quem é o sonho: meu ou seu?
- Seu. Quanto a isto, não há a menor dúvida.
- Pois então? Sendo assim, não há também a menor dúvida de que o gato sou eu, não é mesmo?
- Aí é que você se engana. O gato é você, na sua opinião. E sua opinião é suspeita, porque formulada pelo consciente. Ao passo que, no subconsciente, o gato é uma representação do que significo para você. Portanto, insisto em dizer: o gato sou eu.
- E eu insisto em dizer: não é.
- Sou.
- Não é. O senhor por favor saia do meu gato, que senão eu não volto mais aqui.
- Observe como inconscientemente você está rejeitando minha interferência na sua vida através de uma chantagem…
- Que é que há, doutor? Está me chamando de chantagista?
- É um modo de dizer. Não vai nisso nenhuma ofensa. Quero me referir à sua recusa de que eu participe de sua vida, mesmo num sonho, na forma de um gato.
- Pois se o gato sou eu! Daqui a pouco o senhor vai querer cobrar consulta até dentro do meu sonho.
- Olhe aí, não estou dizendo? Olhe a sua reação: isso é a sua maneira de me agredir. Não posso cobrar consulta dentro do seu sonho enquanto eu assumir nele a forma de um gato.
- Já disse que o gato sou eu!
- Sou eu!
- Ponha-se para fora do meu gato!
- Ponha-se para fora daqui!
- Sou eu!
- Eu!
- Eu! Eu!
- Eu! Eu! Eu
domingo, 3 de julho de 2011
O recalque: de suas primeiras formulações à sua conceitualização
Fabiano Rabêlo
(membro do FCL-Fortaleza, de FCCL-Fortaleza e da EPFCL)
Nesse texto discutiremos os diversos avatares que o recalque assume na obra de Freud, relacionando-o com as experiências fundadoras do dispositivo psicanalítico. Enfatizaremos, com Freud e Lacan, os desdobramentos éticos, técnicos e teóricos dessas experiências.
No prefácio para a segunda edição dos “Estudos sobre a Histeria”, Freud (Breuer et Freud, 1895/2001) recomenda aos interessados pela psicanálise que se iniciem nesse campo com a leitura dos “Estudos”. Diz que aí se encontra a semente (Keim) da experiência psicanalítica (ibidem, p. 23). Lacan (1986) também destaca a importância desse livro. Segundo ele, encontramos nele “uma longa exposição da descoberta da técnica psicanalítica. Ali, vemo-la em formação” (ibidem, p. 73).
Lacan, em referência a esse prefácio escrito por Freud, situa nos “Estudos” o que considera a célula germinal da observação psicanalítica (ibidem, p. 36). Essa célula fundadora, nos diz, pode ser encontrada numa forma particular de indagar a história do indivíduo. Adverte que essa abordagem não objetiva produzir uma historiografia, mas sim restituir a história do sujeito no presente: “o que se trata é menos lembrar do que reescrever a história” (ibidem, 23).
Explica que a reintegração dessa história ultrapassa os limites do indivíduo na medida que se abre para as incidências da linguagem no sujeito. Ao dizer que a história que interessa ao psicanalista possui um caráter transindividual, Lacan aponta para a dimensão da alteridade constitutiva do desejo. Tal alteridade, por sua vez, remete à inscrição no corpo de determinados significantes privilegiados, sucedâneos de exepriências de satisfação que exerceram efeitos marcantes no psiquismo. Podemos nomear esses momentos de trauma e seus efeitos, fixação.
Para Freud, o recalque está no cerne dessa escritura paradoxal do vivido. Ele pressupõe uma modalidade de registro que condiciona o conteúdo inscrito a certas condições de manejo. Por outro lado, toca em elementos que estão no ponto máximo de distensão das possibilidades de elaboração dos excessos de intensidades suportados pelo psiquismo. Esse ponto limite remete-nos à sexualidade, uma vez que é na tomada da posição diante da diferença sexual que o sujeito é confrontado com suas vivências de satisfação mais fundamentais.
Vinte anos depois dos “Estudos”, em resposta a Jung, que propunha a primazia de uma energia dessexualizada, Freud (1914/1999) reafirma a tese da etiologia sexual das neuroses e indica que o ensino do recalque (Verdrängungslehre) deve ser tomado como a pedra angular (Grundpfeiler) do edifício psicanalítico. Continua: “o recalque não é só a pedra angular, é a parte mais essencial (“wesentlichste”) desse edifício”. Em seguida, refere-se ao processo de formulação do recalque: diz que ele “não é nada mais que a expressão teórica de uma experiência que pode ser repetida quando se abandona o uso da hipnose na análise de neuróticos” (ibidem, p. 54).
Após refutar argumentos de críticos e colaboradores, que indentificavam em elementos da filosofia, da biologia e da psicologia a raiz dos pressupostos da psicanálise, Freud sai em defesa da originalide do conceito de recalque: “O ensino do recalque é uma aquisição do trabalho psicanálítico obtido de modo légitmo como extrato teórico a partir de muitas e incontáveis (unbestimmt) experiências” (ibidem, p.55).
Pedra angular, mas também produto de uma praxis (e não seu pressuposto): eis o lugar peculiar do recalque na psicanálise. Podemos dizer daí que o recalque serviu como referência técnica à prática psicanalítica bem antes de sua conceitualização. As primeiras formas de concebê-lo são solidárias às torções de discurso que culminaram na demonstração do saber inconsciente.
É apenas nos artigos metapsicológicos que Freud (1915/1997) desenvolve uma coneituação para o recalque. Ele o define como algo que se situa entre a fuga (Flucht) e o julgamento de condenação (Verurteilung, Urteilsverwerfung). Declara como condição para o recalque que a obtenção de uma finalidade pulsional (Erreichung eines triebzieles) cause desprazer (Unlust) ao invés de prazer (Lust) (ibidem, p. 107). Temos então um cálculo de economia psíquica: os motivos de desprazer (Unlustmotiv) devem se apresentar como mais relevantes do que o prazer da satisfação (Befriedigungslust) (ibidem, p. 108). Destaca ainda que o recalque não é um mecanismo de defesa constitucional (Ursprunglich Vorhandener Abwehrmechanismus). Para ele existir, faz-se necessário a intervenção da linguagem e do Outro, ocasionando a divisão entre Inconsciente e Consciente.
Sua essência consiste em expulsar e manter afastada do Consciente (Abweisung und fernhaltung des Bewussten) (ibidem, p. 108) as manifestações psíquicas do Insconsciente. O recalque busca fazer isso separando a representação do afeto.
Para concluir, apontamos a leitura dos “Estudos” como uma oportunidade de acompanharmos Freud na exposição de algumas das incontáveis torções produzidas nos casos clínicos que conduziu. Uma primeira concepção de recalque surge como produto desse caminho de investigação.
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Bibliografia
BREUER, Josef et FREUD, Sigmund. (1895) Studien über Histerie [Estudos Sobre histeria]. Frankfurt am Main: Fischer Verlag Taschenbuch, 2001.
FREUD, Sigmund. (1914) Zur Geschichite der Psychoanalitische Bewegung [Sobre a história do movimento psicanalítico]. In: GW. Frankfurt am Main: Fischer Verlag, 2000. v. X, p. 43-113.
FREUD, Sigmund. (1915) Die Verdrängung [O recalque]. In: Studienausgabe. Band III. Frankfurt a. M.: S. Fischer, 1997. v. III, p. 103-118.
LACAN, Jacques. O seminário - livro 1: Os Escritos Técnicos de Freud (1953-1954). Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed. 1986.
(membro do FCL-Fortaleza, de FCCL-Fortaleza e da EPFCL)
Nesse texto discutiremos os diversos avatares que o recalque assume na obra de Freud, relacionando-o com as experiências fundadoras do dispositivo psicanalítico. Enfatizaremos, com Freud e Lacan, os desdobramentos éticos, técnicos e teóricos dessas experiências.
No prefácio para a segunda edição dos “Estudos sobre a Histeria”, Freud (Breuer et Freud, 1895/2001) recomenda aos interessados pela psicanálise que se iniciem nesse campo com a leitura dos “Estudos”. Diz que aí se encontra a semente (Keim) da experiência psicanalítica (ibidem, p. 23). Lacan (1986) também destaca a importância desse livro. Segundo ele, encontramos nele “uma longa exposição da descoberta da técnica psicanalítica. Ali, vemo-la em formação” (ibidem, p. 73).
Lacan, em referência a esse prefácio escrito por Freud, situa nos “Estudos” o que considera a célula germinal da observação psicanalítica (ibidem, p. 36). Essa célula fundadora, nos diz, pode ser encontrada numa forma particular de indagar a história do indivíduo. Adverte que essa abordagem não objetiva produzir uma historiografia, mas sim restituir a história do sujeito no presente: “o que se trata é menos lembrar do que reescrever a história” (ibidem, 23).
Explica que a reintegração dessa história ultrapassa os limites do indivíduo na medida que se abre para as incidências da linguagem no sujeito. Ao dizer que a história que interessa ao psicanalista possui um caráter transindividual, Lacan aponta para a dimensão da alteridade constitutiva do desejo. Tal alteridade, por sua vez, remete à inscrição no corpo de determinados significantes privilegiados, sucedâneos de exepriências de satisfação que exerceram efeitos marcantes no psiquismo. Podemos nomear esses momentos de trauma e seus efeitos, fixação.
Para Freud, o recalque está no cerne dessa escritura paradoxal do vivido. Ele pressupõe uma modalidade de registro que condiciona o conteúdo inscrito a certas condições de manejo. Por outro lado, toca em elementos que estão no ponto máximo de distensão das possibilidades de elaboração dos excessos de intensidades suportados pelo psiquismo. Esse ponto limite remete-nos à sexualidade, uma vez que é na tomada da posição diante da diferença sexual que o sujeito é confrontado com suas vivências de satisfação mais fundamentais.
Vinte anos depois dos “Estudos”, em resposta a Jung, que propunha a primazia de uma energia dessexualizada, Freud (1914/1999) reafirma a tese da etiologia sexual das neuroses e indica que o ensino do recalque (Verdrängungslehre) deve ser tomado como a pedra angular (Grundpfeiler) do edifício psicanalítico. Continua: “o recalque não é só a pedra angular, é a parte mais essencial (“wesentlichste”) desse edifício”. Em seguida, refere-se ao processo de formulação do recalque: diz que ele “não é nada mais que a expressão teórica de uma experiência que pode ser repetida quando se abandona o uso da hipnose na análise de neuróticos” (ibidem, p. 54).
Após refutar argumentos de críticos e colaboradores, que indentificavam em elementos da filosofia, da biologia e da psicologia a raiz dos pressupostos da psicanálise, Freud sai em defesa da originalide do conceito de recalque: “O ensino do recalque é uma aquisição do trabalho psicanálítico obtido de modo légitmo como extrato teórico a partir de muitas e incontáveis (unbestimmt) experiências” (ibidem, p.55).
Pedra angular, mas também produto de uma praxis (e não seu pressuposto): eis o lugar peculiar do recalque na psicanálise. Podemos dizer daí que o recalque serviu como referência técnica à prática psicanalítica bem antes de sua conceitualização. As primeiras formas de concebê-lo são solidárias às torções de discurso que culminaram na demonstração do saber inconsciente.
É apenas nos artigos metapsicológicos que Freud (1915/1997) desenvolve uma coneituação para o recalque. Ele o define como algo que se situa entre a fuga (Flucht) e o julgamento de condenação (Verurteilung, Urteilsverwerfung). Declara como condição para o recalque que a obtenção de uma finalidade pulsional (Erreichung eines triebzieles) cause desprazer (Unlust) ao invés de prazer (Lust) (ibidem, p. 107). Temos então um cálculo de economia psíquica: os motivos de desprazer (Unlustmotiv) devem se apresentar como mais relevantes do que o prazer da satisfação (Befriedigungslust) (ibidem, p. 108). Destaca ainda que o recalque não é um mecanismo de defesa constitucional (Ursprunglich Vorhandener Abwehrmechanismus). Para ele existir, faz-se necessário a intervenção da linguagem e do Outro, ocasionando a divisão entre Inconsciente e Consciente.
Sua essência consiste em expulsar e manter afastada do Consciente (Abweisung und fernhaltung des Bewussten) (ibidem, p. 108) as manifestações psíquicas do Insconsciente. O recalque busca fazer isso separando a representação do afeto.
Para concluir, apontamos a leitura dos “Estudos” como uma oportunidade de acompanharmos Freud na exposição de algumas das incontáveis torções produzidas nos casos clínicos que conduziu. Uma primeira concepção de recalque surge como produto desse caminho de investigação.
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Bibliografia
BREUER, Josef et FREUD, Sigmund. (1895) Studien über Histerie [Estudos Sobre histeria]. Frankfurt am Main: Fischer Verlag Taschenbuch, 2001.
FREUD, Sigmund. (1914) Zur Geschichite der Psychoanalitische Bewegung [Sobre a história do movimento psicanalítico]. In: GW. Frankfurt am Main: Fischer Verlag, 2000. v. X, p. 43-113.
FREUD, Sigmund. (1915) Die Verdrängung [O recalque]. In: Studienausgabe. Band III. Frankfurt a. M.: S. Fischer, 1997. v. III, p. 103-118.
LACAN, Jacques. O seminário - livro 1: Os Escritos Técnicos de Freud (1953-1954). Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed. 1986.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Acréscimo à bibliografia do Seminário da Escola
Caros colegas,
Segue complementação da bibliografia indicada pela Zilda Machado.
Seminário VI
Lição XXI de 20/05/59
Lição XXII de 27/05/59
Lição XXIII de 03/06/59
Lição XXIV de 10/06/59
Lição XXV de 17/06/59
um abraço,
Graça
Segue complementação da bibliografia indicada pela Zilda Machado.
Seminário VI
Lição XXI de 20/05/59
Lição XXII de 27/05/59
Lição XXIII de 03/06/59
Lição XXIV de 10/06/59
Lição XXV de 17/06/59
um abraço,
Graça
terça-feira, 21 de junho de 2011
SEMINÁRIO DO CAMPO LACANIANO EM FORTALEZA - JULHO
DESEJO E FANTASIA
ZILDA MACHADO
AME, EPFCL-Brasil / Fórum de Belo Horizonte
DATA: 02/07/2011
LOCAL: Hotel Diogo
GRUPO DE ESTUDOS PREPARATÓRIO
QUARTAS-FEIRAS, 20h
Sede do FCL-Fortaleza
Informações: Graça Soares (85) 9983-7373
BIBLIOGRAFIA SUGERIDA
FREUD, S. Uma criança é espancada: uma contribuição ao estudo da origem das perversões
sexuais. ESB. Vol. XVII
FREUD, S. Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade. ESB. Vol. IX
LACAN, J. Seminário VI - O desejo e sua interpretação - Lição XVIII (22/04/59)
LACAN, J. O Seminário. Livro 4 - A relação de objeto. Cap. VII: Bate-se numa criança e a
jovem homossexual.
LACAN, J. O seminário Livro 5 - As formações do inconsciente. Cap. XIII: A fantasia para
além do princípio de prazer
LACAN, J. A lógica da fantasia. In: Outros Escritos
LACAN, J. Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano. In:
Escritos.
QUINET, A. Um olhar a mais. Cap. 8: Quadro da fantasia Jorge Zahar Editor (p. 167-173)
VIDAL. E. A construção do fantasma. In: Revista Letra Freudiana. 1, 2, 3, 4 Número,
transferência, fantasma, direção da cura. Ano XII no. 1/4 (1993). (p.98-101)
ZILDA MACHADO
AME, EPFCL-Brasil / Fórum de Belo Horizonte
DATA: 02/07/2011
LOCAL: Hotel Diogo
GRUPO DE ESTUDOS PREPARATÓRIO
QUARTAS-FEIRAS, 20h
Sede do FCL-Fortaleza
Informações: Graça Soares (85) 9983-7373
BIBLIOGRAFIA SUGERIDA
FREUD, S. Uma criança é espancada: uma contribuição ao estudo da origem das perversões
sexuais. ESB. Vol. XVII
FREUD, S. Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade. ESB. Vol. IX
LACAN, J. Seminário VI - O desejo e sua interpretação - Lição XVIII (22/04/59)
LACAN, J. O Seminário. Livro 4 - A relação de objeto. Cap. VII: Bate-se numa criança e a
jovem homossexual.
LACAN, J. O seminário Livro 5 - As formações do inconsciente. Cap. XIII: A fantasia para
além do princípio de prazer
LACAN, J. A lógica da fantasia. In: Outros Escritos
LACAN, J. Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano. In:
Escritos.
QUINET, A. Um olhar a mais. Cap. 8: Quadro da fantasia Jorge Zahar Editor (p. 167-173)
VIDAL. E. A construção do fantasma. In: Revista Letra Freudiana. 1, 2, 3, 4 Número,
transferência, fantasma, direção da cura. Ano XII no. 1/4 (1993). (p.98-101)
segunda-feira, 20 de junho de 2011
O Tempo do Final e o Ato Psicanalítico
Texto Preliminar às XIII Jornadas de FCCL-Rio (informações abaixo), de Zilda Machado.
Zilda é AME da EPFCL do Fórum do Campo Lacaniano de Belo Horizonte e será a próxima convidada do Seminário do Campo Lacaniano em Fortaleza. O encontro será no dia 02 de julho de 2011 e o tema é Desejo e Fantasia.
É com Lacan que o conceito de Ato analítico surge como uma noção inerente não só ao procedimento analítico, mas à própria formação do analista. A operação analítica, porém, já estava em curso há mais de meio século. Por que então Lacan pôde dizer no começo de seu resumo sobre o Seminário O Ato Psicanalítico: O ato psicanalítico, ninguém sabe, ninguém viu além de nós? [1]
Freud introduziu o ato na psicanálise, e o conceito de repetição que lhe é inerente. Ele mostra que há um tipo de ato que se repete pela via significante e outro que se repete por outra lógica, ou seja, desde os primórdios percebeu as duas lógicas do aparelho psíquico e a partir delas introduziu o ato na psicanálise. Inicialmente, o fez através da Psicopatologia da Vida Cotidiana com os atos falhos e os lapsos - ou seja, a partir das formações do Inconsciente. Mas ele sabia que algo do aparelho psíquico era de outra ordem, o que o levou à virada dos anos 20. Algo no aparelho está para além da interpretação, para além da linguagem. Ou melhor, algo se apresenta não pelos tropeços de linguagem, mas por uma compulsão a agir. Temos o texto princeps Recordar, repetir e elaborar que aponta o limite da interpretabilidade, embora desde o início esse limite já estivesse posto. (confere: 1908 As teorias sexuais infantis, por ex.).
Mas foi Lacan que introduziu o conceito de ato inserido na própria operação analítica: o ato psicanalítico. É essa a grande novidade que ele traz ao cenário da psicanálise a partir da construção do objeto a, o operador da parte do falasser não articulável em linguagem. Com isso Lacan conseguiu operacionalizar o final de análise e levar o sujeito à transposição do rochedo da castração, o limite detectado por Freud. É nesse sentido que ele fala o ato analítico, ninguém sabe, ninguém viu além de nós. A partir daí muda-se radicalmente a idéia do final de análise e da análise didática.
Em que consiste propriamente o ato psicanalítico? Embora muitas vezes nos refiramos a todas as intervenções do analista como ato analítico, são duas apresentações do ato psicanalítico as que, nesse momento, me interessam mais de perto e que, me parecem, são de fato o que Lacan denomina ato psicanalítico: o ato que permite a entrada em análise (o primeiro umbral) e aquele que permite a saída, sua conclusão (o segundo umbral). Mas estas duas noções do ato analítico se referem a um único e mesmo ato, nos diz Lacan. O tempo de um se enoda ao tempo do outro e constitui a repetição (...) que introduz o a posteriori próprio do tempo lógico no seio da experiência analítica, nos diz Lacan na Proposição de 9 de outubro.
Começar uma psicanálise é um ato? se pergunta Lacan no Seminário 15. Certamente que sim. Mas quem é que produz esse ato? Para aquele que se engaja em uma análise, a regra de ouro da psicanálise é justamente que na cena analítica ele se abstenha de agir e que fale tudo o que lhe vier à cabeça, ou seja, fale e não faça. Neste sentido, nos diz Lacan, o ato analítico não está do lado do analisante. A ele cabe a tarefa analisante, através da associação livre. O ato analítico, o que autoriza a tarefa psicanalisante[2], provém do analista. É nesse momento, que Lacan trata a questão de que o que está em jogo é o enodamento que enlaça na análise que se sustenta, a própria análise do analista. Portanto, para tratar da entrada em análise de um analisante qualquer, o que está presente é o ato analítico que instituiu o analista que naquele momento conduz aquela análise.
O verdadeiro ato, portanto, é aquele que teve lugar na análise do analista. Aquele que levou o então analisante ao ultrapassamento do segundo umbral, o que fez dele um analista e que justamente no mesmo golpe, atingiu em cheio o Sujeito suposto Saber, fazendo-o decair de sua função aí está o des-ser do analista, diz Lacan. Nesse momento preciso houve o ato analítico, proferido (instituído, atuado, praticado? é difícil encontrar uma palavra, pois não há sujeito do ato) por aquele que, justo neste ato, se instituiu analista, o que só ocorreu porque houve a queda do Sujeito suposto Saber. É da ordem de ou um ou outro. Em havendo o ato, instituiu-se ali o psicanalista, e este ato inscreverá no psicanalista uma marca, um label, um rótulo, que a partir dali terá a ver com o modo pelo qual ele poderá sustentar as análises que tomar a seu cargo. Uma marca que seus congêneres haverão de saber encontrá-la, nos diz Lacan na Nota aos Italianos[3], e que demonstrará que houve a passagem de analisante a psicanalista. Podemos então entender que a análise sempre ocorre na presença do analista. Em havendo o des-ser daquele que conduzia a análise, ocorre a báscula que transforma o analisante em analista. Institui-se ali um psicanalista. Momento de passagem. Momento de passe.
________________
[1] LACAN. O ato psicanalítico. Outros escritos. P. 371.
[2] Lacan. Seminário 15. p. 140
[3] LACAN . Outros escritos. P. 313
XIII JORNADAS DE FORMAÇÕES CLÍNICAS DO CAMPO LACANIANO RIO DE JANEIRO
25 a 27 de novembro de 2011
Local: Hotel Novo Mundo
Praia do Flamengo, 20 - Flamengo
Coordenação:
Elisabeth da Rocha Miranda e Georgina Cerquise
Informações:
Célia da Silva - Rua Goethe, 66 Botafogo email: secretaria@fcclrio.org.br
Telefone: (21) 2537-1786 - 2286-9225
Deposito conta bancária: banco Itaú agência 8598 C/c. 06617-6
Informamos que as inscrições realizadas por depósito de conta bancária precisam ser confirmadas por via e-mail
Inscrições até 15/08
Membros e Participantes de FCCL- Rio: R$170,00
Estudantes de graduação: R$110,00
Estudantes de pós graduação: R$130,00
Profissional: R$190,00
Zilda é AME da EPFCL do Fórum do Campo Lacaniano de Belo Horizonte e será a próxima convidada do Seminário do Campo Lacaniano em Fortaleza. O encontro será no dia 02 de julho de 2011 e o tema é Desejo e Fantasia.
É com Lacan que o conceito de Ato analítico surge como uma noção inerente não só ao procedimento analítico, mas à própria formação do analista. A operação analítica, porém, já estava em curso há mais de meio século. Por que então Lacan pôde dizer no começo de seu resumo sobre o Seminário O Ato Psicanalítico: O ato psicanalítico, ninguém sabe, ninguém viu além de nós? [1]
Freud introduziu o ato na psicanálise, e o conceito de repetição que lhe é inerente. Ele mostra que há um tipo de ato que se repete pela via significante e outro que se repete por outra lógica, ou seja, desde os primórdios percebeu as duas lógicas do aparelho psíquico e a partir delas introduziu o ato na psicanálise. Inicialmente, o fez através da Psicopatologia da Vida Cotidiana com os atos falhos e os lapsos - ou seja, a partir das formações do Inconsciente. Mas ele sabia que algo do aparelho psíquico era de outra ordem, o que o levou à virada dos anos 20. Algo no aparelho está para além da interpretação, para além da linguagem. Ou melhor, algo se apresenta não pelos tropeços de linguagem, mas por uma compulsão a agir. Temos o texto princeps Recordar, repetir e elaborar que aponta o limite da interpretabilidade, embora desde o início esse limite já estivesse posto. (confere: 1908 As teorias sexuais infantis, por ex.).
Mas foi Lacan que introduziu o conceito de ato inserido na própria operação analítica: o ato psicanalítico. É essa a grande novidade que ele traz ao cenário da psicanálise a partir da construção do objeto a, o operador da parte do falasser não articulável em linguagem. Com isso Lacan conseguiu operacionalizar o final de análise e levar o sujeito à transposição do rochedo da castração, o limite detectado por Freud. É nesse sentido que ele fala o ato analítico, ninguém sabe, ninguém viu além de nós. A partir daí muda-se radicalmente a idéia do final de análise e da análise didática.
Em que consiste propriamente o ato psicanalítico? Embora muitas vezes nos refiramos a todas as intervenções do analista como ato analítico, são duas apresentações do ato psicanalítico as que, nesse momento, me interessam mais de perto e que, me parecem, são de fato o que Lacan denomina ato psicanalítico: o ato que permite a entrada em análise (o primeiro umbral) e aquele que permite a saída, sua conclusão (o segundo umbral). Mas estas duas noções do ato analítico se referem a um único e mesmo ato, nos diz Lacan. O tempo de um se enoda ao tempo do outro e constitui a repetição (...) que introduz o a posteriori próprio do tempo lógico no seio da experiência analítica, nos diz Lacan na Proposição de 9 de outubro.
Começar uma psicanálise é um ato? se pergunta Lacan no Seminário 15. Certamente que sim. Mas quem é que produz esse ato? Para aquele que se engaja em uma análise, a regra de ouro da psicanálise é justamente que na cena analítica ele se abstenha de agir e que fale tudo o que lhe vier à cabeça, ou seja, fale e não faça. Neste sentido, nos diz Lacan, o ato analítico não está do lado do analisante. A ele cabe a tarefa analisante, através da associação livre. O ato analítico, o que autoriza a tarefa psicanalisante[2], provém do analista. É nesse momento, que Lacan trata a questão de que o que está em jogo é o enodamento que enlaça na análise que se sustenta, a própria análise do analista. Portanto, para tratar da entrada em análise de um analisante qualquer, o que está presente é o ato analítico que instituiu o analista que naquele momento conduz aquela análise.
O verdadeiro ato, portanto, é aquele que teve lugar na análise do analista. Aquele que levou o então analisante ao ultrapassamento do segundo umbral, o que fez dele um analista e que justamente no mesmo golpe, atingiu em cheio o Sujeito suposto Saber, fazendo-o decair de sua função aí está o des-ser do analista, diz Lacan. Nesse momento preciso houve o ato analítico, proferido (instituído, atuado, praticado? é difícil encontrar uma palavra, pois não há sujeito do ato) por aquele que, justo neste ato, se instituiu analista, o que só ocorreu porque houve a queda do Sujeito suposto Saber. É da ordem de ou um ou outro. Em havendo o ato, instituiu-se ali o psicanalista, e este ato inscreverá no psicanalista uma marca, um label, um rótulo, que a partir dali terá a ver com o modo pelo qual ele poderá sustentar as análises que tomar a seu cargo. Uma marca que seus congêneres haverão de saber encontrá-la, nos diz Lacan na Nota aos Italianos[3], e que demonstrará que houve a passagem de analisante a psicanalista. Podemos então entender que a análise sempre ocorre na presença do analista. Em havendo o des-ser daquele que conduzia a análise, ocorre a báscula que transforma o analisante em analista. Institui-se ali um psicanalista. Momento de passagem. Momento de passe.
________________
[1] LACAN. O ato psicanalítico. Outros escritos. P. 371.
[2] Lacan. Seminário 15. p. 140
[3] LACAN . Outros escritos. P. 313
XIII JORNADAS DE FORMAÇÕES CLÍNICAS DO CAMPO LACANIANO RIO DE JANEIRO
25 a 27 de novembro de 2011
Local: Hotel Novo Mundo
Praia do Flamengo, 20 - Flamengo
Coordenação:
Elisabeth da Rocha Miranda e Georgina Cerquise
Informações:
Célia da Silva - Rua Goethe, 66 Botafogo email: secretaria@fcclrio.org.br
Telefone: (21) 2537-1786 - 2286-9225
Deposito conta bancária: banco Itaú agência 8598 C/c. 06617-6
Informamos que as inscrições realizadas por depósito de conta bancária precisam ser confirmadas por via e-mail
Inscrições até 15/08
Membros e Participantes de FCCL- Rio: R$170,00
Estudantes de graduação: R$110,00
Estudantes de pós graduação: R$130,00
Profissional: R$190,00
sexta-feira, 17 de junho de 2011
STYLUS 21
STYLUS 21 JÁ SE ENCONTRA À VENDA NA SEDE DO FCL-FORTALEZA.
EM BREVE, STYLUS 22.
EDITORIAL - STYLUS 21
Em julho de 2010, a belíssima cidade de Roma sediou o VI Encontro da Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano e da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, presidido pelos colegas Diego Mautino e Mario Binasco. O tema escolhido para esse Encontro não poderia ser mais oportuno: “O mistério do corpo falante”.
Essa frase foi extraída da penúltima aula do Seminário Encore (1972/73), traduzido para o português como Mais, ainda: o real é o mistério do corpo falante, é o mistério do inconsciente (p. 178). Encore (ainda), En corp (no corpo). Nesse Seminário, Lacan ensina que a experiência psicanalítica trata da substância gozante. Essa substância não é nem a res extensa de Descartes, nem tampouco a res anatômica dos mapas dos anatomistas. Trata-se, antes, da substância do corpo, com a condição de que se defina como aquilo de que se goza. Um corpo – afirma Lacan – isso se goza (p. 35).
Mas, atenção! Atenção para a advertência de que o gozo do Outro – do corpo do Outro que o simboliza – não é signo de amor. O âmour (almor), neologismo que une alma e amor é, segundo Lacan numa transação fora-do-sexo. A alma ama a alma, não há sexo na transação. O sexo não conta nesse caso (p. 114). A tentativa da ciência em localizar o gozo da mulher na anatomia é o sonho da fantasia masculina, como aponta Lacan em várias passagens do Seminário Encore, já que não apenas o gozo do Outro não é signo do amor, como também o corpo que o simboliza não pode ser reduzido a um pedaço de carne, que Lacan nomeia de gozo do órgão. É próprio da neurose excluir o Heteros que lhe causa horror.
O seminário Encore transmite, assim, a impossibilidade de escrever a relação do real do corpo com a linguagem: o ser do corpo é sexuado, mas não é desses rastros que depende o gozo do corpo no que ele simboliza o Outro. O corpo, aqui, está longe de ser apenas uma imagem, ou mesmo o cadáver (corps), produzido pela inscrição do traço e a cessão do objeto a – ou seja, o corpo simbólico. O corpo, em sua dimensão real, é propriamente o “lugar do gozo”. Trata-se, portanto, de formalizar uma divisão no próprio campo do gozo. Como Lacan sublinha: A resposta que o gozo do corpo do Outro pode constituir não é necessária (p. 12). O amor, ao contrário, em sua necessária cumplicidade, sempre almeja o Um. Lacan convoca, aqui, a “carta de amor”, a carta de Paulo de Tarso que funda o universalismo cristão, o Todo inscrito na máxima: amai-vos uns aos outros. Mas o Um, argumenta Lacan, “só se aguenta pela essência do significante”. E ele acrescenta: Encore é o nome próprio dessa falha de onde, no Outro, parte a demanda do amor. Ele abre, então, a questão: De onde parte o que é capaz, de maneira não necessária, e não suficiente, de responder pelo gozo do corpo do Outro? Não é do amor, mas do amuro (p. 13). O amuro é o que aparece em signos bizarros no corpo. São esses caracteres sexuais que vêm do além, sob a forma de gérmen. É de lá que vem o encore, o en corp (no corpo). Há rastros no amuro (p. 13).
Se é evidente a referência do amuro à rocha da castração, ou seja, ao real da diferença sexual, Lacan, entretanto, adverte que são apenas rastros. A questão dos corpos sexuados é, portanto, tomada como “fatos de discurso”, ou seja, a sexuação humana é uma consequência lógica do discurso. E dessas consequências, o Psicanalista é convocado a extrair um posicionamento ético.
Nesse número 21 da Revista Stylus – que prossegue no tema iniciado no número 20 “Corpo e inconsciente” – poderemos acompanhar, teórica e clinicamente, algumas provas desse posicionamento.
Na seção “Ensaio”, contamos com os textos de Barbara Guatimosin e Antonio Quinet que articulam, com propriedade, Arte e Psicanálise. O primeiro parte de gravações originais de algumas canções e trabalha “os efeitos de lalíngua em algumas de suas versões, transcriações nas quais se cortam e se enodam significações, produzindo o novo desde efeitos de real no sentido”. O segundo conclui que “homem é um ser-para-a-arte, o teatro é o lugar da poesia encorpada, do significante gozante, da letra que se faz voz, lugar onde o ator demonstra a materialidade fonética da palavra, o gozo de lalíngua, lugar onde pode transformar seu corpo num poema, um corpoema”. Ainda nessa seção, Maria Helena Martinho se serve da obra-prima do escritor japonês Yukio Mishima, intitulada Sol e aço (1968), na intenção de destacar desse ensaio autobiográfico as descobertas feitas pelo autor sobre a relação entre “o corpo e as palavras”. E Raul Pacheco Filho explora “as conexões entre: de um lado, a alienação estrutural e trans-histórica do sujeito e seu ‘encantamento’ com os objetos; e, de outro, a alienação contingente e histórica do sujeito do capitalismo e o fetichismo da mercadoria”.
Na seção “Trabalho crítico com conceitos”, contamos com o trabalho de Diego Mautino, apresentado em Roma – “O ‘corpo falante’ e o ‘mistério de uma outra satisfação’ –, no qual articula ‘mistério do corpo falante’” (mistério – corpo – falante) aos registros RSI, à revisão impressa por Lacan sobre o sintoma (tomando o artifício de Joyce como paradigma) e ao termo satisfação. Sandra Berta – em artigo também apresentado em Roma – aborda “as considerações sobre a passagem do trauma como acidente para o troumatismo, termo cunhado por Lacan para dizer do furo que afeta a estrutura do parlêtre”. E Jairo Gerbase “examina como o sujeito maneja o corpo em função das estruturas clínicas: neurose e psicose, fazendo uma segunda relação entre este manejo e as dimensões do Real, do Simbólico e do Imaginário (RSI)”.
Contamos, ainda, com a contribuição do artigo da Antropóloga Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer – “Corpo: produto e suporte de representações sociais” – produzido a partir de uma conferência proferida no FCL-SP, cuja proposta é indicar algumas das principais conquistas da antropologia e seu atual engajamento em discussões acadêmico-políticas pertinentes às noções de corpo e corporalidade.
Na seção “Direção do tratamento”, o leitor poderá acompanhar um pouco mais da produção da Rede de pesquisa “Sintoma e Corporeidade”, do FCL-SP, por meio do trabalho de uma de suas coordenadoras, Tatiana Carvalho Assadi, cujo objetivo é mostrar, num caso de vitiligo, como a função de uma letra não escutada durante as entrevistas preliminares poder ser a marca da entrada em análise e da leitura como tática clínica num caso de fenômeno psicossomático. Rosane Melo discute, por meio de fragmentos clínicos, a relação entre a incorporação significante, tanto nos sintomas corporais da histeria, quanto nos fenômenos corporais da esquizofrenia. E Gabriel Lombardi, com o rigor que lhe é peculiar, extrai as consequências da oposição entre a conversão como sintoma com o qual o histérico chega a se vincular socialmente, e o sintoma do neurótico obsessivo que, nos dizeres de Freud, é “um assunto particular do enfermo”.
Antes de finalizar, gostaria de lembrar que, com o número 21, a atual Equipe de Publicação de Stylus (2008-2010) se despede, agradecendo a todos os que apoiaram seu trabalho durante esse período e desejando aos futuros integrantes um ótimo trabalho.
Boa leitura!
Ana Laura Prates Pacheco
EM BREVE, STYLUS 22.
EDITORIAL - STYLUS 21
Em julho de 2010, a belíssima cidade de Roma sediou o VI Encontro da Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano e da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, presidido pelos colegas Diego Mautino e Mario Binasco. O tema escolhido para esse Encontro não poderia ser mais oportuno: “O mistério do corpo falante”.
Essa frase foi extraída da penúltima aula do Seminário Encore (1972/73), traduzido para o português como Mais, ainda: o real é o mistério do corpo falante, é o mistério do inconsciente (p. 178). Encore (ainda), En corp (no corpo). Nesse Seminário, Lacan ensina que a experiência psicanalítica trata da substância gozante. Essa substância não é nem a res extensa de Descartes, nem tampouco a res anatômica dos mapas dos anatomistas. Trata-se, antes, da substância do corpo, com a condição de que se defina como aquilo de que se goza. Um corpo – afirma Lacan – isso se goza (p. 35).
Mas, atenção! Atenção para a advertência de que o gozo do Outro – do corpo do Outro que o simboliza – não é signo de amor. O âmour (almor), neologismo que une alma e amor é, segundo Lacan numa transação fora-do-sexo. A alma ama a alma, não há sexo na transação. O sexo não conta nesse caso (p. 114). A tentativa da ciência em localizar o gozo da mulher na anatomia é o sonho da fantasia masculina, como aponta Lacan em várias passagens do Seminário Encore, já que não apenas o gozo do Outro não é signo do amor, como também o corpo que o simboliza não pode ser reduzido a um pedaço de carne, que Lacan nomeia de gozo do órgão. É próprio da neurose excluir o Heteros que lhe causa horror.
O seminário Encore transmite, assim, a impossibilidade de escrever a relação do real do corpo com a linguagem: o ser do corpo é sexuado, mas não é desses rastros que depende o gozo do corpo no que ele simboliza o Outro. O corpo, aqui, está longe de ser apenas uma imagem, ou mesmo o cadáver (corps), produzido pela inscrição do traço e a cessão do objeto a – ou seja, o corpo simbólico. O corpo, em sua dimensão real, é propriamente o “lugar do gozo”. Trata-se, portanto, de formalizar uma divisão no próprio campo do gozo. Como Lacan sublinha: A resposta que o gozo do corpo do Outro pode constituir não é necessária (p. 12). O amor, ao contrário, em sua necessária cumplicidade, sempre almeja o Um. Lacan convoca, aqui, a “carta de amor”, a carta de Paulo de Tarso que funda o universalismo cristão, o Todo inscrito na máxima: amai-vos uns aos outros. Mas o Um, argumenta Lacan, “só se aguenta pela essência do significante”. E ele acrescenta: Encore é o nome próprio dessa falha de onde, no Outro, parte a demanda do amor. Ele abre, então, a questão: De onde parte o que é capaz, de maneira não necessária, e não suficiente, de responder pelo gozo do corpo do Outro? Não é do amor, mas do amuro (p. 13). O amuro é o que aparece em signos bizarros no corpo. São esses caracteres sexuais que vêm do além, sob a forma de gérmen. É de lá que vem o encore, o en corp (no corpo). Há rastros no amuro (p. 13).
Se é evidente a referência do amuro à rocha da castração, ou seja, ao real da diferença sexual, Lacan, entretanto, adverte que são apenas rastros. A questão dos corpos sexuados é, portanto, tomada como “fatos de discurso”, ou seja, a sexuação humana é uma consequência lógica do discurso. E dessas consequências, o Psicanalista é convocado a extrair um posicionamento ético.
Nesse número 21 da Revista Stylus – que prossegue no tema iniciado no número 20 “Corpo e inconsciente” – poderemos acompanhar, teórica e clinicamente, algumas provas desse posicionamento.
Na seção “Ensaio”, contamos com os textos de Barbara Guatimosin e Antonio Quinet que articulam, com propriedade, Arte e Psicanálise. O primeiro parte de gravações originais de algumas canções e trabalha “os efeitos de lalíngua em algumas de suas versões, transcriações nas quais se cortam e se enodam significações, produzindo o novo desde efeitos de real no sentido”. O segundo conclui que “homem é um ser-para-a-arte, o teatro é o lugar da poesia encorpada, do significante gozante, da letra que se faz voz, lugar onde o ator demonstra a materialidade fonética da palavra, o gozo de lalíngua, lugar onde pode transformar seu corpo num poema, um corpoema”. Ainda nessa seção, Maria Helena Martinho se serve da obra-prima do escritor japonês Yukio Mishima, intitulada Sol e aço (1968), na intenção de destacar desse ensaio autobiográfico as descobertas feitas pelo autor sobre a relação entre “o corpo e as palavras”. E Raul Pacheco Filho explora “as conexões entre: de um lado, a alienação estrutural e trans-histórica do sujeito e seu ‘encantamento’ com os objetos; e, de outro, a alienação contingente e histórica do sujeito do capitalismo e o fetichismo da mercadoria”.
Na seção “Trabalho crítico com conceitos”, contamos com o trabalho de Diego Mautino, apresentado em Roma – “O ‘corpo falante’ e o ‘mistério de uma outra satisfação’ –, no qual articula ‘mistério do corpo falante’” (mistério – corpo – falante) aos registros RSI, à revisão impressa por Lacan sobre o sintoma (tomando o artifício de Joyce como paradigma) e ao termo satisfação. Sandra Berta – em artigo também apresentado em Roma – aborda “as considerações sobre a passagem do trauma como acidente para o troumatismo, termo cunhado por Lacan para dizer do furo que afeta a estrutura do parlêtre”. E Jairo Gerbase “examina como o sujeito maneja o corpo em função das estruturas clínicas: neurose e psicose, fazendo uma segunda relação entre este manejo e as dimensões do Real, do Simbólico e do Imaginário (RSI)”.
Contamos, ainda, com a contribuição do artigo da Antropóloga Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer – “Corpo: produto e suporte de representações sociais” – produzido a partir de uma conferência proferida no FCL-SP, cuja proposta é indicar algumas das principais conquistas da antropologia e seu atual engajamento em discussões acadêmico-políticas pertinentes às noções de corpo e corporalidade.
Na seção “Direção do tratamento”, o leitor poderá acompanhar um pouco mais da produção da Rede de pesquisa “Sintoma e Corporeidade”, do FCL-SP, por meio do trabalho de uma de suas coordenadoras, Tatiana Carvalho Assadi, cujo objetivo é mostrar, num caso de vitiligo, como a função de uma letra não escutada durante as entrevistas preliminares poder ser a marca da entrada em análise e da leitura como tática clínica num caso de fenômeno psicossomático. Rosane Melo discute, por meio de fragmentos clínicos, a relação entre a incorporação significante, tanto nos sintomas corporais da histeria, quanto nos fenômenos corporais da esquizofrenia. E Gabriel Lombardi, com o rigor que lhe é peculiar, extrai as consequências da oposição entre a conversão como sintoma com o qual o histérico chega a se vincular socialmente, e o sintoma do neurótico obsessivo que, nos dizeres de Freud, é “um assunto particular do enfermo”.
Antes de finalizar, gostaria de lembrar que, com o número 21, a atual Equipe de Publicação de Stylus (2008-2010) se despede, agradecendo a todos os que apoiaram seu trabalho durante esse período e desejando aos futuros integrantes um ótimo trabalho.
Boa leitura!
Ana Laura Prates Pacheco
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