quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Cinema e Psicanálise: Ressonâncias - Outubro

Sábado, 22/10, às 15h – Palíndromos (Tod Solondz) - Aviva Victor, uma garota de 13 anos, quer ser mãe. Ela faz todo o possível para conseguir seu intento, mas é frustrada por seus pais. Determinada a ficar grávida de qualquer jeito, ela foge de casa mas se perde em um outro mundo, de estranhas possibilidades.
Nesta ocasião, contaremos com a presença de Rafael Pinheiro como nosso debatedor. 
 
O Cinema e Psicanálise do Fórum de Fortaleza dá continuidade a sua programação trazendo filmes que abordem a temática do desejo em suas produções. O tema corrobora com o do Encontro anual da EPFCL/Brasil e com o nosso Seminário de Formação local. Esperamos encontrá-los em nossas sessões regadas à pipoca com refrigerante e uma boa discussão.
Lembramos que essa atividade é gratuita e trata-se de um espaço aberto a todos os amantes da sétima arte e da psicanálise.
 
LOCAL:
Rua Leonardo Mota, 1394, sl 103 - Aldeota - Fortaleza - CE
 
Informações: Elynes Barros - 8898-7288 (Oi) e 9603-7294 (TIM)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

VII Encontro Internacional da IF-EPFCL - Rio de Janeiro 2012


Dias 6 a 9 de julho de 2012.
Centro de Convenções do Hotel Sofitel – Copacabana, Rio de Janeiro.

Realizar-se-ão também na mesma data:
- o Simpósio sobre o Passe: dia 6 de julho de 2012, às 18:00 horas;
- as Assembléias Gerais da Internacional dos Fóruns e da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano: Hotel Sofitel – Copacabana | Rio de Janeiro: dia 9 de julho de 2012.
A resposta do psicanalista se diferencia da ciência por levar em consideração o sujeito do desejo que esta rejeita; se diferencia da religião e suas práticas por não ceder à crença num Outro que não existe assim como ao Um ditatorial das massas e seitas; se opõe à resposta do capitalista porque não foraclui, como este, a falta. Ao contrário, o analista, ao ocupar a posição de rebotalho que é própria da sua ética, faz valer as questões tanto do mal-estar do sujeito sofredor quanto do mal-estar da civilização. A isso, Freud responde: “caminhe!”, “fale!”. No lugar de responder às demandas e aspirações do ser–para-o-sexo, o psicanalista faz valer o “eu te peço que não respondas à minha demanda, porque não é isso” (Lacan, “Ou pior...”,09/02/72).
Freud diagnostica no início do século XX o mal-estar da civilização como renúncia ao gozo sexual; Lacan, no final do século passado, o aponta como resultado do laço social dominante que é o discurso do capitalista e sua foraclusão da castração. Resultado: somos todos proletários diante do capital. Mas hoje, nossa sociedade de consumidores, microcréditos, microempresas, microcéfalos é a expressão da “civilização de metas”. Resultado: todos empresários! Eis o imperativo do supereu que transforma nossas vidas em olimpíadas, matando quem está na frente e acenando com medalhas de chocolate e louros de plástico. Ao vencedor: as batatas! (Machado de Assis, Quincas Borba, 1892).
Quais são as formas de retorno da castração foracluída? A generalização da falta-a-gozar concomitante ao empuxo ao gozo tem efeitos no sujeito individual que não se distingue do sujeito coletivo, conforme Freud, em 1921. Quais as respostas do analista orientado pela ética do desejo e do bem-dizer? A psicanálise denuncia os novos semblantes do sintoma demonstrando que sua estrutura permanece a mesma. Por ser tecido de linguagem ele é sensível à palavra, por condensar um gozo ele é reduzido pelo ato analítico. A responsabilidade do analista implica no acolhimento do sintoma e na sustentação do tratamento possível do gozo do sofrimento. Fundamentado em uma ética anticapitalista, o psicanalista desmascara os semblantes do social com os quais se travestem os discursos da dominação: os gadgets como objetos de desejo, os corpos-mercadorias, os novos produtos sólidos no lugar da fluidez dos laços, as intermináveis respostas às demandas e aspirações do ser–para-o-sexo, as violentas investidas racistas de segregação da diferença.
Opondo-se ao main stream, sem ser passadista, o psicanalista não se alia à ciência e ao capital foraclusivos que fazem crer no delírio generalizado – do somos todos Um – e nas “novas” descobertas do homem neuronal. O discurso do psicanalista é o avesso disso, fazendo dele cúmplice do negro de todas as raças (Heiner Müller). O analista se alia ao artista com seu tour de force de poesia que desvela o não-sentido de todas as coisas, os sentidos religiosos prêt-à-porter e que o sentido é dado pelo desejo de cada um.
O adulto permancece o filho do homem: a psicanálise mostra que ao criançar-se nas palavras o homem as cria com o que poetisa sua singularidade. O que não quer dizer que a psicanálise pretende uma saída individualista. Não há sujeito sem outro, diz Lacan. E sempre haverá um outro, com sua diferença e sua forma de gozo. À cloaca máxima da civilização (conforme a conferência de Lacan em 1973, no MIT), que suga o ser de sua morada de linguagem, o analista com sua clínica, em seu ato e sua interpretação, desvela a castração como constituinte de todo ser falante e o sem-razão de um Outro gozo, que é sempre diferente. E norteado pela lógica da heteridade, aponta a abertura ao novo e para a chegança sempre surpreendente do outro.

Antonio Quinet e Sonia Alberti
Sub-temas:
responsabilidade do psicanalista | a ética na psicanálise | psicanálise e política | clínica do ato | desejo e interpretação | bem dizer e gozo | a aposta clínica no sujeito e os discursos da contemporaneidade | psicanálise e crença | o psicanalista e a ciência | arte e psicanálise | psicanálise e os outros saberes | as respostas do analista às psicoses | ... e às toxicomanias | a criança na psicanálise | o psicanalista e o Real.

Tabela de Preços:

Até 31/12/2011
Até 05/03/2012
Até 15/06/2012
No local (em dinheiro):

R$ 570,00
R$ 600,00
R$ 650,00
R$ 750,00
Estudantes de graduação, profissionais da Saúde, da Educação e da Justiça (com comprovante oficial): Somente 150 vagas – R$ 380,00
Inscreva-se pelo site www.rio2012if-epfcl.org.br, com seu cartão de crédito e de forma segura. Para tanto, é ncessário criar um login e, após este ser gerado, faça o pagamento com seu cartão de crédito. Havendo dúvidas, não hesite em entrar em contato pelo e-mail: rio2012ifepfcl@gmail.com, tentaremos redimi-las.

NORMAS PARA ENVIO DE PROPOSTAS DE TRABALHO:
Após a inscrição no Encontro, os interessados em apresentar trabalhos deverão encaminhar o argumento, junto com o comprovante do depósito bancário, de acordo com as seguintes instruções:
  1. Resumo em arquivo formato Word versão 2007 ou superior. Envio do argumento até 18/03/2012.
  1. Arquivo contendo duas páginas: 1) folha de rosto contendo o título do trabalho, nome completo do autor, sua instituição e e-mail; 2) folha do argumento contendo apenas o título do trabalho e o corpo do texto (contextualização do tema e objetivo do trabalho) com 1500 a, no máximo, 2000 caracteres.
  2.  O resultado da seleção dos resumos será divulgado até 30/04/2012 e os autores cujos trabalhos tiverem sido selecionados terão até o dia 03/06/2012 para enviar o texto integral para rio2012ifepfcl@gmail.com. A versão definitiva não poderá ultrapassar 10.000 caracteres contados com os espaço. Infelizmente, será impossível incluir na programação os trabalhos que não chegarem ao limite dessa data ou que extrapolarem o previsto em tamanho.

Hospedagem: escrever para rio2012ifepfcl@gmail.com, diretamente à Comissão Social, com seus pedidos.
Passagens aéreas internacionais: Sugerimos que as comprem agora, se isso for possível, pois serão mais baratas.
Coordenação da Comissão Social: Elisabeth da Rocha Miranda (bethrm@uol.com.br) e Maria Pinto (mariapinto8@gmail.com).
Agencia de Turismo Oficial do Encontro: fittour@fittour.com.br

sábado, 15 de outubro de 2011

Textos Preliminares para o XII Encontro Nacional da EPFCL/AFCL – Brasil
PRELÚDIO 7
DESMITIFICAR A INTERPRETAÇÃO
Marc Strauss


A injunção de desmitificar a interpretação responde ao fato de que ela, a interpretação, é convocada pelo uso que fazemos do Édipo, sobre o qual incide a questão de nossa jornada.
Com efeito, a interpretação edipiana é o pedestal, pelo menos histórico, da reflexão psicanalítica.Contudo, sabemos, pelo menos por ter lido o argumento desta jornada, que Lacan criticou, inclusive condenou, essa referência como o que deve decidir a interpretação psicanalítica.
Escolhi este termo – interpretação – e depois fiquei com uma dúvida: ele existe ou o inventei com base no desmistificar? Depois de verificar, eu me assegurei de que ele existe. Mas, uma surpresinha, é um termo muito recente em nossa língua, porque foi apresentado pela primeira vez no Jornal Le Monde na data de 15 de maio de 1966 e atestado no Quillet, suplemento de 1971. Cinco anos, portanto, para passar do nascimento à morte, eu não saberia afirmar, mas seja como for, à consagração no dicionário. Eu não sou, infelizmente, arrebatado pela linguística para saber qual é a duração média do trajeto de uma palavra. Assim, como eu tinha ido aos dicionários, naturalmente fui ver também o termo desmistificar, implícito no desmitificar. Aí, a surpresa foi muito maior, pois este termo é bem mais antigo que o outro; ele é atestado em 1948 no Robert e no Larousse, com desmistificador e desmistificadora. Infelizmente, o TLF não dá o lugar nem o momento do aparecimento da palavra, a menos que não tenha sido impressa antes e que não tenha sido usada senão oralmente até então. Nâo sei também se esse tipo de situação existe, a primeira escrita de uma palavra diretamente no dicionário, mas por que não...
Evidentemente, a definição dos dois termos difere sensivelmente ainda que ambos visem desfazer, de preferência, a criar. Desse modo,  “livrar (um personagem, uma entidade abstrata) de seus aspectos míticos que velam a realidade subjacente“, definição, é óbvio, de desmitificar, não apela ao mesmo campo semântico que o outro, desmistificar:  “Se incide sobre uma coisa, trata-se de despojá-la de seu caráter misterioso ou enganosamente embelezante, mostrando-a tal como é realmente; e se incide sobre uma pessoa, trata-se de desenganá-la mostrando a realidade tal qual, arrebatá-la de sua credulidade causada por um engodo coletivo”.
Tanto desmitificar tem, portanto, a dimensão objetiva de uma fria operação científica, como desmistificar comporta em si uma dimensão de mistério certamente, porém enganoso, mentiroso, enfim, condenável.
E com essa referência à mentira, somos imediatamente reconduzidos ao nosso campo, a psicanálise, e desde o “Esboço” de Freud. Sabemos que, nesse texto do “Esboço”, para explicitar a significação inconsciente do sintoma, dito de outra maneira, sua dimensão sexual e infantil, Freud fala acerca desta mulher que não pode entrar sozinha em uma loja, da ”Proton Pseudos“, primeira mentira.
Reencontramos esta problemática da mentira explicitamente desenvolvida em um pequeno artigo de Freud. “Duas mentiras contadas por crianças”, de 1913, artigo que recomendo vivamente para dar a medida do que é ordenar o material de um caso clínico. Os dois pequenos mentirosos dos quais ele fala, cometeram sua falta em razão justamente de uma ligação inconsciente muito forte com o pai, edipiana, portanto.
Sabemos também que Lacan fez muito caso da mentira. Obviamente, ele começou por valorizar a palavra da verdade, ressaltando que mesmo a mentira não era sem referência a ela, e ele quis mostrar como a mentira da conduta dos pais tem um efeito devastador na criança; porém, concluiu colocando-as de certa maneira no mesmo plano com sua expressão  “verdade mentirosa“, no prefácio da edição inglesa do Seminário XI, que comentamos com obstinação, sob a condução de Colette Soler, há quatro anos [atrás]. Para um texto de duas páginas, podemos reconhecer a performanceE não acabou, vocês verão daqui a pouco!
Se a verdade é mentira, verdade e mentira então são idênticas? E se torna a mentira, a verdadeira mentira, a do bom mentiroso? Eis aí uma pergunta que apenas gostaria de colocar, pois nosso assunto é outro.
Dissemos, Lacan se empenhou em combater certo uso do Édipo, tão vão em sua dimensão sistemática quanto em sua utilidade prática. Porém, antes de chegar a desmitificação do Édipo por Lacan, não é inútil, me parece, observar que ele no início o mitificou. Ou, para ser mais exato, ele procurou fazer dessa tragédia um mito autêntico, autêntico no sentido da definição que disso deu aquele que ligou seu nome ao estudo dos mitos, Claude Lévi-Strauss. Era o objetivo de Lacan em 1953, como se pode ler em sua intervenção no Colégio de Filosofia, a convite de Jean Wahl. Uma intervenção da qual não temos o escrito de Lacan, mas apenas transcrições, uma delas estando publicada em Ornicar(Nº 17/18), com o título de “O mito individual do neurótico”. Um título de fato incompleto porque descobri, graças à Internet, que foi anunciado com o título de ”Mito individual do neurótico, ou poesia e verdade na neurose”. Não deploramos este desaparecimento “ornicariano” da poesia e da verdade, e constatamos, de preferência, no texto de Lacan, que ele critica,  explicitamente, não Freud, mas todo o esquema do Édipo.
Citá-lo-ei depois de ter lembrado que ele se apoia em dois casos, “O homem dos ratos” e Goethe, para mostrar que a estrutura fantasiosa que determina a realidade da relação ao objeto possui não três, mas quatro elementos e, assim,   tem a estrutura de um mito. A citação (p.304) é a seguinte: “O sistema quaternário tão fundamental nos impasses, insolubilidades da situação vital das neuroses, é de uma estrutura bastante diferente da que é dada tradicionalmente – o desejo incestuoso da mãe, a interdição do pai, seus efeitos de barragem, e, em torno disso, a proliferação mais ou menos luxuriante dos sintomas. Creio que esta diferença deveria nos levar a discutir a antropologia geral que emerge da doutrina analítica tal qual ela é ensinada até o presente. Em uma palavra, todo o esquema do Édipo deve ser criticado“ Ele prossegue dizendo que não tem tempo de fazê-lo, mas não pode deixar de tentar introduzir o quarto elemento de que se trata. E depois de nos ter mostrado o impossível recobrimento do pai simbólico em toda a sua plenitude com o pai da realidade sempre de alguma maneira carente, nos diz qual é este quarto termo: a morte. Citação, ainda, do fim do texto: “É a morte imaginária e imaginada que se introduz na dialética do drama edipiano, e é dela que se trata na formação do sintoma do neurótico – e talvez, até certo ponto, em algo que ultrapassa muito a formação do neurótico, ou seja, a atitude existencial característica do homem moderno”.
Desse modo, a assunção do ser para a morte, teoria de Lacan do fim da análise nessa época, implícita nesse texto, porém explícita alhures, é a solução dos impasses neuróticos aos quais conduz o Édipo patógeno; a expressão é dele.
A finalidade de uma análise se exprime, portanto, diferentemente conforme nos referimos ao romance freudiano ou ao mito lacaniano. Com Freud, podemos dizer que o sujeito deve, graças à análise, suspender o recalcamento e assim se desfazer das fixações edipianas infantis, com o objetivo do que chamarei  “atualizar sua vida“. Para Lacan, o sujeito deve-se assumir, reconhecendo-se, neste lugar quarto da morte, para poder se livrar dos efeitos patógenos das identificações narcísicas, impossíveis de conciliar com as que lhe fornece sua constelação familiar e, desse modo, também atualizar sua vida. Passo, por falta de tempo, à descrição que ele faz de um sujeito isento de neurose...
Dito isso, a crítica de Lacan incide, ao que me parece, menos sobre Freud, embora ela exista também, do que sobre o uso do complexo de Édipo na interpretação de seus contemporâneos – e sobre o ensino da psicanálise que teve curso nos anos 50. Com efeito, reconhecemos em Freud que a impossibilidade já tem nele uma função absolutamente determinante: é exatamente porque a satisfação edipiana é faltante, não realizada, que ela tem a importância que Freud lhe dá na constituição e na forma do desejo. Deste ponto de vista, Lacan coloca o mito e o romance no mesmo plano, o de “dar forma a uma impossibilidade“, porém substitui a impossibilidade factual pela impossibilidade de estrutura, fórmula de “Televisão” em 1974, já presente no texto de 1953: “O elemento da dívida está colocado em dois planos ao mesmo tempo – precisamente no plano do símbolo e no da realidade da constelação familiar tal como constituída pelo sujeito, da fantasia portanto – e é exatamente na impossibilidade de reunir os dois planos que se estabelece todo o drama do neurótico”.  Indico também pela leitura do que se segue, que o não-neurótico não é aquele que chegou a juntar os dois planos, mas aquele que, graças à assunção do ser para a morte, teria feito ato desta impossibilidade.
Desse modo, Édipo triangular ou quaternário, a definição do sintoma se aproxima  nos dois, sendo a manifestação de uma verdade que se trata de decifrar para trazer à tona: verdade inconsciente de um laço reprimido para Freud, verdade de um impossível que se manifesta na depreciação do saber para Lacan.
Depois de ter acentuado as semelhanças, acentuemos agora uma diferença: a interpretação do excessivo apego infantil posta em destaque é uma explicação do sintoma suposta ser em si terapêutica, o dito sintoma se dissolvendo à luz do dia como o vampiro que ele é. Sabemos que a virada dos anos 20 foi provocada já por um sério questionamento pelos pacientes da eficácia desta interpretação pela iluminação que tinha perdido todo efeito de surpresa.
E, antes de chegar, porque esperamos todos, suponho, à interpretação equívoca de Lacan, que deve jogar contra o sentido, recebida como tardia em seu ensino, vamos nos interrogar sobre o que pode ser o funcionamento pela operação analítica da morte nas figuras identificatórias da constelação familiar do sujeito. Não há lá, me parece, muito lugar para o sentido, e duvido que explicar a um sujeito que ele é, fundamental e estruturalmente, um sujeito para a morte, provoque grande efeito, mesmo consciente. Como então introduzi-la senão pela palavra (mot)... psiu (motus): o silêncio. Onde, sem forçar, já podemos reconhecer uma prática oposta à tagarelice, ainda que explicativa, e mesmo se um lugar para a fala plena ainda é reservado como possível. Dito de outra maneira, a morte, que representa aqui a castração, não é um mito.
Da mesma maneira que, no percurso de Lacan, não podemos manter a oposição sumária entre o sentido e o equívoco, igualmente me parece que não podemos, no outro extremo, reportar inteiramente a interpretação equívoca ao acento posto por Lacan sobre  “alíngua“, em uma palavra, e sobre o inconsciente real. Parece-me que a apresentação do equívoco precede as elaborações sobre o inconsciente real e não as supõe necessariamente. Assim, para me fazer compreender, o cachorro que faz miau e o gato que faz au-au no texto "A instância da letra" já é um equívoco, como o destaque que ele coloca em todas as cadeias significantes às quais a palavra árvore se pode prestar.
Com efeito, um equívoco é como uma piada. Para interrompê-lo em um momento de sideração, ele não para definitivamente a cadeia do sentido, ele a reorienta, a reordena em outro campo semântico. Para a piada, Freud nos mostrou como esse novo campo prova ser, por acréscimo, rico em satisfações tendenciosas que se tornam de súbito livremente acessíveis. Tendência supõe pulsão, donde podemos facilmente deduzir que o campo ou os campos semânticos abertos por um equívoco introduzido na cadeia do sentido fornecem o acesso ao  emaranhado das pulsões e ao giro central do objeto.
Dito de outra maneira, a questão é a seguinte: o uso do equívoco é ou não suficiente para  mostrar uma análise orientada para o real? E minha resposta é não. A utilização do equívoco pode levar a mais-de-sentido, inclusive a uma multiplicidade de mais-de-sentido. E esses mais-de-sentido podem convergir para um pleno de sentido, um sentido do sentido, um sentido último que se denomina fantasia. E com o destaque da fantasia, o sujeito, sempre elusivo por um lado, seu ser de objeto privilegiado por outro, não estamos ainda no inconsciente real, nem na moterialidade.
Dou um exemplo que não ilustrará senão o que acabo de dizer. Trata-se de uma paciente que sonha com o ator Georges Brasseur. Ele está aí, em um contexto familiar bastante vago para que nada se distinga, e, para dizer tudo, sua presença ganha toda densidade a partir de seu nome próprio pronunciado pela paciente no sonho. Ela associa: todo mundo, diz que ele parece com seu pai; ele é filho de um pai célebre e  provavelmente  sentiu o peso disso sobre si, igualmente como com seu pai, sente o peso desta sombra tutelar. Há também a cerveja tomando seu nome próprio como um nome comum. Há, enfim, a mãe, sua relação com atores e outros homens célebres e sedutores, admitindo-se que não sejam sinônimos absolutos. Mas, enfim, este sonho continua a obsedá-la com tanta presença quanto o ator no próprio sonho. Ela continua, portanto, a pensar nisso durante e entre as seções, até o momento em que a luz explode nela sem que ela tenha visto isto vindo:  “bras-soeur“. A irmã (soeur) e os braços da irmã (“bras de la soeur”). Um sentimento de evidência se impôs a ela, ela sabe, é a chave de seu sonho. Nela se precipita uma série de lembranças e considerações acerca dessa irmã sobre a qual ela, com frequência e não sem algum mal-estar, surpreendida no divã, não tinha nada a dizer. “Animada com sua descoberta”, é um resumo para meus camaradas do jogo “Lacan de cor”;  animada com sua descoberta, portanto, ela me relata e com efeito fala com abundância dessa irmã, suas opiniões lhe abrindo, para sua surpresa, perspectivas infinitamente mais vastas que antes, sobre sua relação com seus objetos de amor. E seu sonho, assim como a presença permanente do nome do ator, desapareceram de suas preocupações sem que ela notasse.
Vemos sentido novo graças ao equívoco, porém, ainda assim, sentido. Que este equívoco seja trazido pela própria paciente, que sabe sobre si tanto quanto os pacientes de Freud sobre o Édipo, não muda nada, porque a surpresa reside nas perspectivas que ela abre, mais do que em seu proferimento.
De equívoco em equívoco, portanto, até o pleno de sentido. Um pleno de sentido suposto como a parte mais alta de um edifício ser o último, coloca um término à sua deriva infinita. Um termo, insisto, à sua deriva, mas não ao próprio sentido. E para preencher seja o que for, por mais pleno que ele seja, ele não exprime do sentido sua causa. Ele não faz mais que tentar preenchê-la, sem levantar o véu, véu que faz anteparo à projeção da cena na qual se representa este sentido, como desejo falicamente ordenado.
Atrás do que esse véu esconde, há certamente um vazio, uma falta de representação, porém não há nada. Não chegamos ao ponto em que se trata, para Lacan, de levar em conta outros gozos além do fálico, que se referem ao significante apreendido na cadeia, isto é, no sentido, na história, nahystorização, tal como ele neologizou. Há um gozo próprio à língua, fora de sua apreensão na cadeia, fora do sentido e, portanto, fora do mito, que é então alíngua, em uma só palavra.
É ao tocá-la que se sabe que se está no inconsciente, e que não há mais nada a dizer dela, pois ela não tem mais nenhuma espécie de sentido. Aqueles que conhecem o prefácio à edição inglesa doSeminário XI, todos agora, suponho, compreenderão que mantenho minha promessa do começo, ao solicitar novamente, porque terão reconhecido sua primeira frase: ”Quando o esp de um laps... já não tem mais nenhum impacto  de sentido (ou interpretação), só então temos certeza  de estar  no inconsciente. O que se sabe, consigo”. Esse não é, portanto, um último sentido, ao contrário, é um puro não-sentido último, porque os sentidos estão esgotados.
Uma vez mais, podemos solicitar nossa paciente: quando o enigma Brasseur se apresentou por intermédio do equívoco, perdeu seu valor de enigma, ela simplesmente não pensa mais nisso. Seu sonho reencontrou seu estatuto fundamental de formação do inconsciente e não pode permanecer en sua memória, como a mim, que falo aqui, a não ser como traço, resíduo.
Porém isto é tão verdadeiro? E mesmo no caso do lapso, formação acidental e transitória da língua, é verdade que não tem nenhuma espécie de sentido?
Quem decide esta exaustão do sentido e a partir de quê?
Parece-me, salvo erro, pois não pretendo ter entendido e retido todos os comentários sobre esta primeira frase, que a dimensão assertiva que Lacan lhe dá, redobrada por seu enunciado  “O que se sabe, consigo”, nos obriga a nos interrogar sobre o que a asserção justamente permite. Portanto, recoloco a questão: quem decide a exaustão do sentido e sobre que critério ou argumento? Como se sabe disso? Qual é esse saber que se impõe a priori, antes que seja demonstrado, explicitado?Inclusive, é impossível explicitá-lo porque, como diz a frase imediatamente seguinte,  “Basta que se preste atenção para que se saia dele”. Como, com efeito, experimentar este saber em si, sem lhe prestar atenção, articulá-lo em cadeia de significantes para identificá-lo, nomeá-lo.
 Ainda nossa paciente: certamente, insisto sobre isso, sua atenção a seu sonho e a Brasseur desapareceu, porém é certo que este sonho não tem mais nenhuma espécie de sentido? Dito de outra maneira, eu não poderia, no caso de uma perplexidade da paciente diante de seus ditos, lhe despertar, deixando cair o tom e o ar que me conviria um:  “Ah, Pierre Brasseur”.  Provavelmente, ela seria levada a reconsiderar este sonho e retomaria para ela um valor enigmático. Isto nos mostra que o enigma, um saber reconhecido como tal em um signo, mas cujo sentido escapa, não funciona sem transferência, sem a suposição que uma verdade ainda está aí escondida, suposição que ela fará porque me suporá não tê-la feita sem razão de ser. E, certamente, ela encontrará ainda coisas a dizer, desse brasseur (braço da irmã), seja porque ela o evocou, sem o perseguir desde então, do braço ao nado que lhe evoca certamente sua mãe.
Dito de outra maneira, a transferência, a operacionalização do Outro como lugar da verdade e a suposição de um sentido suplementar a descobrir são estritamente homólogos.
Como então o sujeito pode saber que uma formação do inconsciente não tem mais nenhuma espécie de sentido, se a transferência está ainda no trabalho? Simplesmente, não pode. E a cronologia deve então ser situada de preferência em outro sentido: quando a suposição de saber, isto é, a espera do saber do Outro, está exaurida o sujeito se sabe no inconsciente.
Daí a resposta a uma questão frequentemente colocada sobre a diferença entre as verdadeiras e as falsas saídas da transferência. Quanto às falsas, elas ocorrem simplesmente quando o analista, sejam quais forem as razões, não está habilitado pelo sujeito a responder como sujeito suposto saber, enquanto não está menos em função para o sujeito – que vai encontrar um outro que saiba ou não; quanto às verdadeiras, quando a própria função do sujeito suposto saber está apagada, exaurida, esvaziada.
Dito de outro modo, enquanto a análise não está terminada, enquanto a função do sujeito suposto saber é mobilizável, podemos dizer que uma formação do inconsciente tem sempre ainda um sentido. Não foi isso o que Freud quis dizer a propósito da interpretação de todo o sonho, que sua interpretação exaustiva equivaleria à própria análise considerada em sua totalidade? E, finalmente, essa observação não vale para toda formação do inconsciente, inclusive o lapso, análise completa de cada formação do inconsciente, não encontrando seu termo senão no saber não articulável do fim da suposição de saber?
Para concluir, portanto, um lembrete e uma questão.
O lembrete: a interpretação desmitificada não é apenas o recurso ao equívoco em oposição ao sentido, edipiano ou pulsional, é uma interpretação que visa o mito do sujeito suposto saber.
A questão: se a atenção ao saber do inconsciente faz sair dele, isso quer dizer que não é possível falar sem colocar em jogo a verdade mentirosa, o mito; dito de outro modo, colocar em operação o Outro da verdade mentirosa e o objeto fantasioso quando se trata de falar a seus parceiros na vida. É diferente quando se presta atenção ao inconsciente, falando dele aos outros do que falando de psicanálise? Parece-me que esta questão está presente no texto de Lacan quando ele se interroga explicitamente sobre o motivo que leva alguém a ser analista, além do fato de ganhar dinheiro – e mais implicitamente sobre o que faz ele mesmo escrever sobre a psicanálise.
Louvain 26/09/09
 
 
Tradução: Jairo Gerbase
Revisão: Andréa Hortélio Fernandes


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Prazo prorrogado

Comunicado

A Comissão de Trabalhos da X Jornada do Fórum do Campo Lacaniano de Fortaleza comunica que o prazo para inscrevê-los foi prorrogado até o dia 20 de outubro de 2011. Os resumos devem ser enviados para o endereço fcl.fortaleza@gmail.com.
Atenciosamente,
Coordenação da Comissão

domingo, 9 de outubro de 2011

III Encontro Internacional da Escola - Prelúdio 5

O PASSADOR VISTO A PARTIR DO CARTEL DO PASSE
Clotilde Pascual
Sabemos que no dispositivo do Cartel do Passe, instituído por Lacan, a figura e o papel do passador são cruciais. A escolha do passador por seu analista (AME) é um ato do analista, que em sua intervenção sugere que o analisante nomeado passador, está ele mesmo em um momento de passe. É por estar neste momento de passe que pode escutar o testemunho de um passante, que por sua vez quer dar o testemunho de uma passagem para o desejo de analista em sua própria análise e que, portanto está nesse momento de passe, no momento de passagem de analisante a analista. Como disse Lacan no Item V do texto Comptes Rendus, “no ato psicanalítico assumimos o momento em que o psicanalisante passa a psicanalista”.
Então ser nomeado passador é um momento constituinte para o analisante assim nomeado, e destaca a intervenção de um analista (AME). É um momento de virada e de efeito de interpretação. É, como disse Trinidad Sanchez de Lander em seu texto no Wunsch 10, tratar de responder à pergunta: “Que tipo de sujeito pode surgir que possua a capacidade de escutar uma voz que sendo portadora de um saber, não é o seu, que sendo portadora de um desejo, não lhe é comum?”.
Na verdade, é o passador que escuta o testemunho do passante e o “passa” ao Cartel do Passe, que deve “recolher” este testemunho desde o filtro do passador e verificar se houve na historicização do passante, uma passagem ao desejo de analista e uma repercussão deste desejo tanto na sua prática clínica como na vida pessoal.
Agora vou tentar colocar algumas observações e experiências a partir do Cartel do Passe, mas especificamente a partir da posição de ter sido membro de um Cartel no período 2008-2010 e de haver escutado seis passes, algo que tratei também em um texto publicado no mesmo Boletim citado anteriormente, o Wunsch 10.
Primeiro é constatar que os passadores escutados refletiam o que efetivamente haviam sido capazes de escutar, um testemunho que não era seu, e que tratavam de fazê-lo passar como um texto, no qual se centravam naquilo que o passante havia apresentado como discurso próprio e como estilo de seu Passe. Estes dois pontos me parecem cruciais para atestar que não haviam escutado o passante na posição de analista, e sim de “testemunhas” de um testemunho, que tentavam transmitir o mais fielmente possível.
Na maioria dos testemunhos escutados produzia-se um apagamento subjetivo do passador para que o testemunho de Passe fosse o mais fiel possível. Mas em outras ocasiões, em sua minoria, ocorria que o passador queria dizer muito do material do testemunho para compensar o que se fazia impossível de colocar como efeito de “passe”, desse momento de passagem ao desejo de analista. Também que, nesse dizer muito, o passador havia realizado muitas horas de escuta do testemunho do passante e o cartel verificou que todo esse tempo empregado, constatava o “impasse” do testemunho e a dificuldade do passador para aceitá-lo como tal “impasse”. A partir daí, nos pareceu a todos do cartel que o testemunho do passador sobre o passante não deveria ultrapassar - se possível – o tempo de uma hora, mesmo considerando que cada passe é particular e que em alguns casos é preciso alongar-se um pouco mais, ou escutar duas vezes o mesmo passante, como também aconteceu nesse cartel.
No extremo oposto se encontravam os passadores que faziam a exposição muito mais rápida, para proteger-se de deslizar em interpretações ou deixar-se levar por sua própria subjetividade. Também cumpriam esta função com as notas que tomavam e traziam ao Cartel, as quais na maioria das vezes e na medida em que se ia consolidando o testemunho, eram deixadas de lado ou utilizadas apenas para dados precisos.
O Cartel por sua vez assumia um papel ativo quanto a perguntar nas ocasiões que não eram claros, ou voltando a citar um determinado passador para retomar pontos que haviam ficado confusos na primeira exposição ou que pareciam muito diferentes do outro passador que testemunhava sobre o mesmo passante.
Nessa escuta de dois passadores se verificava a importância de escutar dois passadores para um mesmo testemunho, pelas nuances diferentes que surgiam e porque na escuta de um segundo passador sempre se podia concluir sobre algo escutado pela primeira vez do passador anterior, e discernir se os efeitos imaginários da escuta não impediram de situar melhor os momentos de passe do passante.
Disso tudo se deduz que para o Cartel do Passe é crucial o que o passador transmite, para que se verifique se poderá ou não, ser nomeado AE. O passador é essa “placa sensível” do passe, como disse Lacan, embora seja necessário que o Cartel do Passe, quer dizer, os membros do dito Cartel, estejam à altura do que se lhes pede, a saber, que possam escutar e chegar a uma conclusão sem que os efeitos imaginários ou de fixação a uma doxa teórica impeçam que se tenha em conta o que é importante, a passagem a um desejo de analista, com o que isto implica. Mas há claramente uma contingência, tratada já em muitos textos, as variáveis que todo discurso carrega, que impedem que haja um passe ideal e que nem sempre uma não nomeação de AE significa que não tenha havido esses momentos de passe, mas que, ou o passador ou o cartel não puderam, ou não souberam escutá-los, já que não há transmissão ideal.
É precisamente deste procedimento do passe, não ideal, que podemos pensar sua validade e sua função na Escola como “lembrete” desse ato analítico, que tende ao esquecimento ou ao horror do ato mesmo, em sua forma de defesa diante do que não se pode estabelecer a priori, seja em análise, onde uma interpretação tem efeito de “après coup”, seja no passe mesmo, no qual é com o tempo que se verifica esse passe e seus efeitos em todos os membros implicados e, é claro, especialmente no passante que tenha dado seu testemunho, independente de sua nomeação ou não.

Bibliografia
Lacan: Comptes rendus. Ornicar nº 29. Item V. 1967.
Wunsch nº 10: Contribuição dos Cartéis do Passe, 2008-2010. Cartel nº 2. Considerações sobre o passador e suas réplicas: Danièle Silvestre, Clotilde Pascual, Trinidad Sanchez-Biezma de Lander. Pág. 72-76.
Tradução de Gracia Azevedo

terça-feira, 4 de outubro de 2011

III Encontro Internacional da Escola - Prelúdio 4


O QUE PODE PASSAR
Emilia Malkorra Arsuaga

Lacan não esperava que se posicionasse como analista, aquele que ocupasse a posição de passador, coisa que havia ocorrido em alguns casos, e nem esperava que o passante falasse ao passador como a um analista veterano. Recomendava inclusive que se recrutassem os passadores entre os recém chegados. Por um lado porque não se fala a um passador como se fala a um analista veterano. Por outro lado, Lacan não esperava que o passador tivesse um domínio da teoria, como tão pouco que o testemunho do passante fosse uma exposição de saber sexual.
Além do mais, a transmissão indireta- pela interpretação do passador- introduz certa correção ao efeito de alienação ao discurso do Outro: “em muitos casos vemos uma tendência dos passantes em falar a doxa do momento”... . Os passadores são em geral bastante refratários a este discurso porque são analisantes e não recebem os fragmentos de discurso pré-fabricado com a idéia de que seja algo autêntico...”. (1)
O saber está do lado do passante, e o saber que se espera que ele transmita ao dispositivo está em relação ao que o fez autorizar-se a ser analista. Leiamos a Lacan. Trata-se de saber “porque alguém assume esse risco louco de converter-se no que é esse objeto, no que é esse objeto enquanto que no final das contas ele não representa outra coisa a não ser certo número de enigmas polarizados, os quais, para quem fala, são os que se presentificam nessas grandes funções que não deixam de estar, por outra parte, profundamente ligadas ao corpo, a saber: o seio que  nutre, a separação, o desmame, o recusado, a merda, para chamá-la por seu nome, ou ainda essas coisas que, por ter um aspecto mais nobre, são estritamente do mesmo nível, quero dizer, o olhar e a voz” .(2)
Trata-se de agarrar algo do desejo do analista, na singularidade de cada passante. O passador põe em jogo sua destituição subjetiva ao serviço da transmissão. Espera-se que ele possa oferecer um lugar vazio no qual se pode alojar o testemunho do passante e transmiti-lo. O único modo para que o passador não seja um elemento contaminador é precisamente, não sendo.
Na “Proposição de 9 de outubro de 1967”  de Lacan lemos que o passador é o passe. Como entender esse “ser o passe”? Leiamos a citação: “Donde se poderia esperar, portanto, um testemunho correto sobre aquele que transpõe esse passe, senão de um outro que, como ele, o é ainda, esse passe, ou seja, em quem está presente nesse momento de des-ser em que seu psicanalista conserva a essência daquilo que lhe é passado como um luto, com isso sabendo, como qualquer um na função de didata, que também para eles isso passsará”?(3)
Lendo essa citação parece evidente que Lacan relaciona o des-ser com o passador, no entanto, dois meses mais tarde, no discurso à E.F.P. de 6 de dezembro de 1967”, Lacan se surpreende de que o termo des-ser da citação anterior tenha sido entendido como atribuído ao passador. E aqui ele nos diz: “( o des-ser com que ele é afetado) como término a ser atribuído a cada psicanálise, e que me espanta reencontrar deve assinar a cada psicanalista, termo que me surpreende encontrar em tantas bocas desde minha proposição, como que atribuído àquele que inflige o golpe, por estar no passe, conotando unicamente uma destituição subjetiva: o psicanalisante”, e  continua: “Aquilo de que se trata é de fazer com que se entenda que não é ela (a destituição subjetiva) que faz des-ser, antes ser, singularmente e forte... Nada a ver com o des-ser, cuja questão é saber como pode o passe enfrentá-lo ao se ataviar com um ideal do qual o des-ser se descobriu, precisamente porque o analista já não suporta mais a transferência do saber nele suposto”.(4)
Podemos então entender que o passador oferece ao dispositivo sua destituição subjetiva para ser o passe enquanto exerce sua função? A destituição subjetiva está do lado do passador e o des-ser do lado do passante?
Ocorre que aqui não é fácil distinguir quando Lacan se refere ao passante ou ao passador. Guy Clastres em referência ao texto de Lacan intitulado “nota sobre a eleição de passadores” de 1974 assinala que a própria estrutura do texto é uma estrutura moebiana, as vezes parece que Lacan fala do passador  e as vezes do passante. Isto é para dar conta de algo; mesmo quando as funções estão bem esclarecidas, trata-se de fazer com que algo passe mais além do que cada um sabe. Algo pode passar.
A posição do passador que “não sabe” está longe de ser passiva. O saber inconsciente adquirido em sua análise deve permitir-lhe por em jogo seu desejo para que algo passe. Seguindo a Guy Clastres: “o passador deve poder fazer parir ao passante sua verdade em relação a esse ponto”(5) referindo-se ao desejo do analista ainda que , como disse Lacan: “Ninguém poderia interrogar ao outro sobre isso estando ele mesmo captado por isso”(6).
Leio a interpretação que dá Guy Clastres a esta última frase: “Inclusive se um passador está capturado, a partir da experiência analítica por uma pergunta, a pergunta da verdade que interroga o saber, não é certo que possa interrogar validamente ao passante sobre o que o levou a decidir-se a tornar psicanalista”.(7)
Algo passa para todo aquele que participa do dispositivo, ainda que as vezes não passe o que se espera. Passa o que pode passar.
Agosto de 2001
Tradução de Elisabeth da Rocha Miranda





(1) Soler, C. In: “Debates sobre o passe”. Madrid. 10 de junho de 1991. Publicação do colégio de Psicanálise de Madrid.
(2) Lacan J. In: Séance de travail su la passe”  3/11/1973. Congresso da EFP novembro de 1973. Publicação em Lettres de L’EFP número 15 junho de 1975Tradução: Irene M. Agoff de Ramos para divulgação interna na Escola Freudiana de Buenos Aires.
(3) Lacan, J. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista de Escola, p.260.
(4) Lacan, J. “Discurso à E.F.P. de 6 de dezembro de 1967” documentos de trabalho número 1.Tradução de Hèlène Déjean revisada por Vicente Mira.divulgação interna, p.279.
(5) Clastres, Guy. Comentários ao texto de J. Lacan.  “Notas sobre a eleição de passadores de 1974” em “Debates sobre o passe”.  Madrid, Sessão de 5 de abril de 1992. Publicado pelo colégio de Psicanálise de Madrid.
(6) Lacan, J.  “Nota sobre a eleição de passadores”. 1974.
(8) Clastres, Guy op.cit

sábado, 1 de outubro de 2011

Seminário do Campo Lacaniano em Fortaleza - Outubro



INTERPRETAÇÃO: DA LÓGICA DO SIGNIFICANTE À PO(ÉTICA) DO ATO

ANA LAURA PRATES 
AME, membro do Fórum de São Paulo


DATA: 08 de outubro (manhã e tarde)
INÍCIO: 9:00h
LOCAL: Hotel Diogo, Av. Monsenhor Tabosa, 1716, Meireles
VALOR: R$ 160,00 (profissionais) R$ 80,00 (estudantes de graduação)


Informações: Graça Soares (85) 9983-7373
 


BIBLIOGRAFIA SUGERIDA

LACAN, Jacques. A Direção do Tratamento. In: Escritos. Rio de Jeneiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
LACAN, Jacques. O Aturdito. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
SOLER, Colette. Interpretação: as respostas do analista. In: Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n.13, agosto 1995, Ed. Eolia.
DUNKER, Christian Ingo Lenz. Lacan e a Clínica da Interpretação. Capítulo "A Lógica da Interpretação". São Paulo: Hacker, 1997.