sexta-feira, 7 de novembro de 2014

XV Encontro Nacional da EPFCL-Brasil - Prelúdios 3 e 4


Prelúdio 3 - Amor trago já
Isloany Machado
Convocada a dizer sobre o amor, travei. Sim, escrevo. Mas sobre o amor? Não! Entretanto, não havia escapatória. Tinha que dizer, como psicanalista, do amor. Os dias foram se arrastando e as palavras fugiam. E de lá do fundo do meu falasser brotavam chavões: “O amor é fogo que arde sem se ver”. O que é o amor, o que é o amor? “É só o amor, é só o amor”. Às voltas com a convocação, espremia, espremia, e nada.
Tenho o costume de andar olhando para as coisas do chão. Até algum tempo atrás achava um jeito feio de andar, mas depois de Manoel de Barros[10], que dá tanto valor para as coisas desimportantes – coisas de formigas, de pedras, de rãs – achei que não tinha problema esse meu olho torto. É no chão que acho as coisas mais fundamentais. E eis que um dia, chutando pedrinhas no centro de Campo Grande, encontrei um bilhetinho roto que dizia: “AMOR TRAGO JÁ”. Passei reto. Fiquei com vergonha de apanhar do chão algo que estava tão pisoteado. As palavras ficaram mordendo meu calcanhar, então na volta peguei, com um meio sorriso pra disfarçar o constrangimento. Tentei não fazer de forma furtiva para que as pessoas não pensassem que encontrara algo de valor. Era só um papel muito roto e pisoteado. Corri para o consultório a fim de ler o que dizia. Transcrevo:

AMOR TRAGO JÁ
**ATENÇÃO** Não Sofra mais...Chega de sofrer e venha ser feliz...Eu posso e trago o seuGRANDE AMOR de volta GAMADO, AMARRADO E ACORRENTADO para sempre, em apenas 7 dias com garantia e rapidez, não importa a distância que for, esteja ELE ou ELA aonde estiver. Tenha quem você AMA aos seus pés para sempre. NÃO SOFRA MAIS! Há solução p/ todos os seus problemas e outros mais. Faço e desfaço qualquer tipo de trabalho Espiritual!!
EU GARANTO O QUE EU FAÇO!!!
TRABALHOS RÁPIDOS E GARANTIDOS
Sigilo Absoluto”

Reli umas duas vezes e fiquei sem entender por que as pessoas haviam pisoteado aquele papel, sem lhe dar importância. Fiquei comovida com aquelas palavras. Talvez não com as palavras em si, pelo que dizem, mas porque o amor estava misturado a todas as coisas desimportantes do chão. Quem teria deixado cair o papel? Algum desacreditado do amor? Ou talvez alguém que nunca o tenha conhecido. Reli o papel. Havia ali uma promessa de trazer o amor, o GRANDE AMOR de volta. Mais que uma promessa, havia uma garantia. Me senti descrente, uma mulher de pouca fé: Ora, o amor nada mais é do que amar ser amado, é demandar amor.
Olhei para o divã ao lado e fiquei lembrando dos ditos amorosos e desamorosos – principalmente estes – que ouvira naquele mesmo dia, permeados pelo silêncio das minhas intervenções. Não havia palavra que pudesse dar garantias de trazer o amor no laço, AMARRADO, GAMADO, ACORRENTADO. Encafifada com a promessa do bilhete, pensei: por que não? Por que o amor não se deixa amarrar, acorrentar, para sempre? Depois de alguns minutos a sentir o gosto dessas duas palavras, percebi que o amor não se pode acorrentar porque está como elo da corrente; não se deixa amarrar, porque faz laço; não se permite enodar[11], porque o amor é o que faz nó.
Antes de uma grande declaração de amor, há um nó na língua. Mas quando se perde um amor, resta um nó na garganta. Às vezes este tipo de nó é tão apertado que a vida se vai. Lenine[12] diz: “às vezes parece até que a gente deu um nó”, mas só parece, pois “hoje eu quero sair só”, conta o restante da letra (1+1=1). O amor dá nó no ser: “levei um nó”. Mas o nó que o amor dá não é cego, caso contrário o bilhete roto teria que dizer: “Eu posso e trago o seu GRANDE AMOR de volta GAMADO, AMARRADO E ACORRENTADO para sempre, pois trabalho com um nó cego”. Ora, os termos precisam ser ditos claramente.
Acontece que há outro nó. O nó borromeano, que Lacan utiliza em sua teoria para falar, dentre outras coisas, de algo da ordem do impossível, de que não há completude. Nenhum nó é cego, “desenodável”.  Foi aí que minha ficha caiu e pude entender minha descrença. Esse nó tem três elos iguais em termos de consistência, pois desfeito um, qualquer um, o nó se desfaz. Misturei Lacan com a cigana do bilhete, minha cabeça deu nó. Mas entendi que o silêncio dos meus ditos diante do desamor que ouço todos os dias na clínica, tem a ver com a face real desse nó, com o impossível da relação sexual. Então, pelo lado avesso, pensei: se o amor é narcísico, pois não foge das identificações e dos espelhamentos, é, portanto, imaginário. Mas se o amor faz laço, enlaça o sujeito com seu desejo, é simbólico.
Neste momento, deixei cair o bilhete e pensei: “Dona cigana, sua desatadora de nós, não acorrente o amor, deixe-o livre para fazer nós”. Reli pela última vez o bilhete e reformulei seu dito:
AMOR TRAGO NÃO
**ATENÇÃO**   Pode sofrer por amor...Continue a sofrer, pois amar não é o mesmo que ser feliz...Eu não posso e não trago o seu GRANDE AMOR de volta GAMADO, AMARRADO E ACORRENTADO para sempre, porque não se faz nó cego no amor, porque não se pode acorrentar o amor, pois ele é a corrente. No amor não há garantias, quanto menos em apenas 7 dias. Não importa a distância que for, esteja ELE ou ELA aonde estiver, o ‘amor é bicho instruído’[13]. Tenha quem você AMA aos seus pés para sempre, no espelho. SOFRA, porque ‘essa ferida, meu bem, às vezes não sara nunca, às vezes sara amanhã’. Não há resposta pronta p/ nenhum de seus problemas e de ninguém mais.
EU NÃO GARANTO NADA!!!
TRABALHOS LONGOS E SEM GARANTIAS
Sigilo Absoluto”
    
Venham atar os nós do amor em Campo Grande nos dias 13, 14, 15 e 16 de novembro! Mas eu não garanto nada!!!



Prelúdio 4 - Ah amor...Há sexos!
Silvia Amoedo

Para tratar o tema “Amor e Sexos”, busco, na subversão da escrita poética de Clarice Lispector, fragmentos do romance Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. Trata-se de um encontro amoroso entre Lóri e Ulisses.
Lóri busca, na imagem de Ulisses, seus próprios ecos, seu modo de ser, de existir e de amar. Busca encontrar no Outro, outro sexo, sua posição feminina. Faz semblante de mulher, enfeita o corpo para o encontro: põe sobre si mesma alguém outro – pinta demais os olhos, a boca, mascara o rosto com pó –, exatamente o que ela não é, revelando-se e ocultando-se, para ser desejada ao mesmo tempo que amada.
O fato de o ser humano falar implica, desde já, um corpo que clama, corpo submetido à linguagem, e uma inconsequente desnaturalização chamada desejo - uma posição excêntrica: é sempre outro -, o que impede uma aprendizagem. Não há, portanto, caminhos ou determinações que definam o que é ser homem e o que é ser mulher. O que significa dizer que o sujeito, por nascer com o significante, já nasce dividido.
Nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, Freud sistematizou o conceito de pulsão, diferenciando-o do de instinto. O destino da pulsão é incerto. Seu objeto, aquilo em que a pulsão pode alcançar seu objetivo de satisfação, é variável. No entanto, a pulsão apreende um objeto, porém não se satisfaz, deslocando-se de um objeto para outro. Dessa forma, ser homem ou ser mulher não pode ser definido pelo biológico, mas pela linguagem, numa relação entre seres falantes, definida pela posição do sujeito em relação ao significante do desejo. Nada mais que significantes.
Há, portanto, na escolha sexual, uma marca que porta o desconhecimento e a alienação inerentes à própria história do ser falante.
A linguagem dá o sentido humano às coisas. E Lóri aprende a se aproximar das coisas sem ligá-las a sua função e, assim, entrevê como seriam as coisas e as pessoas antes que lhes fosse dado o sentido humano. Já sabe um pouco de si, mas isso não responde ao que ela é como mulher.
Ao ver-se de corpo inteiro no espelho, Lóri pensa que ser um corpo único é também proteção, pois um corpo único lhe dava a impressão de que não fora cortada de sua condição essencial como mulher, qual seja a de ser “não toda”.
 Para encontrar os mistérios do corpo falante, Lóri adentra o mar, que a aceita, apesar da resistência, tal como no amor, em que a oposição pode ser um pedido secreto. Para Lóri, o amor de corpo é estranho e cego, e cada pessoa, sem saber da outra, reinventa a cópia do outro.      
Lóri se des-cobre num estado de graça indizível e incomunicável como o dos místicos e, nesse momento, num gozo mais-além, encontra o impossível de si mesma: [...] “Eu sou tua e tu és meu, e nós é um”[14].  Mas, na questão do amor, o encontro é sempre falho: não há coincidência entre o que o amado possui e o que falta ao amante. O que se ama é o objeto, associado à função daquilo que é amado, o ser do objeto – aquilo que escapa à linguagem –, e não um sujeito. Segundo Lacan, “o amor é impotente, ainda que seja recíproco, porque ele ignora que é apenas o desejo de ser Um o que nos conduz ao impossível de estabelecer a relação dos [...] sexos”[15].
Na posição de habitar a linguagem, há “o homem e mulher”[16]. É por esse a que Lacan funda o estatuto d`a mulher no que ela é “não toda”. No entanto, há mulheres fálicas e há homens cuja função fálica não define a posição homem ou mulher. Como fazer amor?
“Fazer amor, como o nome indica, é poesia”[17].

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