quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Espaço Escola


Nessa próxima quinta-feira, dia 29, estaremos realizando o Espaço Escola, atividade do FCL-Fortaleza aberta ao público e destinada ao debate sobre a Escola. Este será o primeiro de dois momentos. Veremos o que levou Lacan a fundar sua Escola, seu conceito e funcionamento e as consequências para a formação do analista e para o conceito de analista. No próximo mês, daremos continuidade à discussão através da fundação da EPFCL e sua atualidade.

A Escola de Lacan

1) Antes da Escola

     "Fundo - tão sozinho como sempre estive em minha relação com a causa psicanalítica - a Escola Francesa de Psicanálise..." - assim começou Lacan no dia 21 de junho de 1964, quando fundou a sua escola, que passou a se chamar em seguida Escola Freudiana de Paris (EFP). Até chegar a esse ponto, porém, um longo caminho foi percorrido.
     Vamos voltar a 1953.
     Existia a Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP) e dela fazia parte Lacan, juntamente com outros psicanalistas ainda hoje conhecidos, como Françoise Dolto e Daniel Lagache. Esses psicanalistas romperam com a SPP e fundaram a Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP). Isso não significou um rompimento com a IPA, da qual eram membros, mas a nova sociedade tinha um estatuto precário diante dela. Segundo Roudinesco, Lacan, não sendo favorável à cisão, fez tudo o q estava ao seu alcance para evitá-la. Considerava catastrófica a rejeição, pelos liberais, do modelo médico em proveito da psicologia, e desastrosa a adesão dos conservadores a um ensino médico esclerosado.
     Durante dez anos a SFP pleiteou sua filiação à IPA e esse processo, bastante complicado, resultou na saída definitiva de Lacan e Dolto da internacional e, consequentemente, na fundação da EFP.  Como nos esclarece Quinet, na trajetória de Lacan na IPA, dois pontos sempre foram focos de conflito e de não aceitação - o encurtamento das sessões e a participação de analisantes nos seminários de ensino do analista. Roudinesco nos informa que eles (a SFP), foram alvos de algumas comissões de inquérito, sendo que até Winnicott fez parte de uma delas.  A primeira comissão fez uma avaliação negativa tanto de Lacan quanto de Dolto. "Nem Lacan nem Dolto eram 'técnicos' da análise didática no sentido kleiniano ou annafreudiano do termo. Não obedeciam a nenhum 'padrão'. Não controlavam estritamente suas intervenções em função da transferência, da contratransferência ou das resistências. Não interpretavam os enunciados de seus pacientes em momentos muito precisos do desenrolar da análise , não eram adeptos do cronômetro e não seguiam sistematicamente a regra das quatro ou cinco sessões semanais." (Roudinesco)
     No congresso de Copenhague, em julho de 1959, uma nova comissão foi formada, e esta iniciou seus trabalhos em 1961, os quais resultaram em duas decisões da IPA: as Recomendações de Edimburgo, de 61, (p. 70 de Q) e a Diretriz de Estocolmo, em 63. Na primeira, que tinha vinte itens, Lacan não deveria mais aceitar novos casos em formação: nem supervisão, nem análise didática. O segundo relatório levou o Executivo, algum tempo mais tarde, a excluir Lacan, não da IPA, mas da lista dos didatas da SFP, e foi essa exclusão que ele considerou sua excomunhão. 
     Ora, polêmicas semelhantes já haviam ocorrido na BPS ( Sociedade Psicanalítica Britânica) com o debate entre Melanie Klein e Anna Freud,  porém o kleinismo permanecera um componente essencial da IPA. Para Roudinesco, isso se deve a que Klein e os membros de seu grupo haviam elaborado uma doutrina da análise tecnicamente aceitável pela IPA, o que não era de fato o caso de Lacan entre 1960 e 1963. " 
     Roudinesco ainda se pergunta por que Lacan quis retornar para um meio que ele criticava em termos tão virulentos, mas ela considera que, principalmente na França, a idéia de uma ruptura com a IPA não podia ser nem considerada, mesmo porque, finalmente, após o que ela qualifica como um passado chauvinista, eles estariam finalmente se "internacionalizando". O sentimento de pertencimento era tão grande que os dissidentes, por assim dizer, não se deram conta de que, ao se demitir da SPP, perdiam sua qualidade de membros da IPA. Ou seja, por mais que Lacan criticasse, isso não o impedia de querer continuar fazendo parte de seus quadros, uma vez que, para ela, ele se sentia portador de uma legitimidade doutrinal incontestável.
     Tudo isso, porém, não impediu que, no congresso de 1963, fosse lançada a Diretriz de Estocolmo, onde ele deveria ser totalmente excluído da lista de didatas como condição da SFP continuar filiada à IPA como Grupo de Estudos. Antonio Quinet assim se expressa sobre o assunto: "Essa proscrição para sempre do seu ensino, considerado, portanto, nulo para a habilitação do psicanalista, foi tida por Lacan como equivalente à excomunhão maior (...). Além do mais, para alguém que mais tarde deixaria explicitado que não há diferença entre e análise didática e a análise terapêutica, abandonar a função didática significava abrir mão de sua posição de analista." 
     Lacan então encerrou seu seminário no Hospital Saint-Anne, depois da primeira lição de Os Nomes-do-Pai, e profere um seminário onde ele vai se interrogar sobre os fundamentos da psicanálise e que acabou por se tornar um dos mais conhecidos: "Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise" (seminário 11).  Um Grupo de Estudos de Psicanálise é fundado por aqueles que se alinhavam com ele e no ano seguinte ele funda a Escola Freudiana de Psicanálise.
     Se me for permitido mais uma citação de Roudinesco, gostaria de indicar o seguinte parágrafo:
     "A aplicação da Diretriz de Estocolmo teve por consequência banir da IPA uma doutrina que não invocava nenhuma dissidência, como o junguismo ou o adlerismo, mas reivindicava, ao contrário, como o kleinismo, sua plena pertença à ortodoxia freudiana. Sob esse aspecto, a cisão de 1963 foi única no gênero. Pela primeira vez na história do movimento psicanalítico, uma corrente de estrita obediência freudiana achava-se de fato excluída do legitimismo freudiano. Essa exclusão de um novo tipo ia obrigar Lacan a fundar, contra a vontade, um movimento que, embora denominado freudiano, não poderá deixar de tornar-se posteriormente lacaniano."
     Assim se expressa Quinet: o ano de 1964 irrompe com uma atmosfera de recomeço: Lacan decide falar sobre os fundamentos para um público novo, num lugar novo, a ENS e, em 21 de junho de 1964 faz a leitura do "Ato de fundação", fundando assim a EFP.

2) A Escola

     "Fundo - tão sozinho como sempre estive na minha relação com a causa analítica - a Escola Francesa de Psicanálise - da qual assegurarei, para os próximos quatro anos, pelos quais no presente nada me impede de responder - pessoalmente a direção.
     Este título, em minha intenção, representa o organismo onde deve cumprir-se um trabalho - que, no campo aberto por Freud, restaura a lâmina cortante de sua verdade - que traz a praxis original que ele instituiu, sob o nome de psicanálise, no dever que retorna a ele no nosso mundo - que, através de uma crítica assídua, denuncie os desvios e os compromissos que amortecem seu progresso, degradando sua utilização." 
     Assim Lacan inicia seu Ato de Fundação de Escola Freudiana de Paris.
     Por que, em primeiro lugar, se traduz por ato? Em francês a palavra act tanto quer dizer ato quanto ata. Por ser solitário, e fundar um antes e um depois, a fundação da Escola é tanto um ato - embora tão sozinho não queira dizer o único - quanto uma ata de fundação com valor de estatuto. Essa ata/ato veio acompanhada de uma nota anexa, onde ele faz referência ao analista didata, à candidatura à Escola e outros ítens. 
     Nessa fundação Lacan funda aquilo que vai ser alçado depois a um dos pilares da Escola, o cartel, que aqui é apresentado como o único órgão para a execução do trabalho que ele propõe: restaurar, no campo aberto por Freud, a lâmina cortante da sua verdade e cumprir o dever da psicanálise no mundo. Voltaremos a isso futuramente.
     Lacan propõe três sessões para a Escola: 
     1) a primeira a seção de psicanálise pura, que não é outra coisa que a psicanálise didática. Quinet chama a atenção para o fato de que ele não mais usa uma lista de didatas, pois uma análise só se revela assim a posteriori, quando o analisante se torna analista. "Nessa seção, ele coloca a doutrina da psicanálise pura - a crítica interna de sua praxis como formação - já indicando que é dentro de uma análise que se forma um analista. (...) Nessa seção estão incluídas como subseções: a doutrina da psicanálise pura, a crítica da formação e a supervisão. Trata-se, antes, de que não haja nenhuma prática em que o sujeito se garanta por si mesmo sem prestar contas a ninguém." Os controles a que ele se refere dizem respeito, internamente, à colocação à prova do que o analista faz em sua prática, através da exposição de saber e da apresentação de casos clínicos; e externamente, ao confronto com outros saberes.  
     2) Na seção de psicanálise aplicada trata-se da clínica psicanalítica, de seus efeitos terapêuticos e de sua relação com a clínica médica. É uma questão, para ele, de colocar "a psicanálise na berlinda sustentada pela doutrina freudiana, ao submetê-la ao confronto com outras definições nosográficas e propiciar a participação do analista na própria formulação dos projetos terapêuticos em serviços médicos, sejam eles psiquiátricos ou não." Essa seção também se subdivide em três.
     3) Por último, a seção de recenseamento do campo freudiano, onde "se assegurará em primeiro plano a exposição e a censura crítica de tudo o que oferecem neste campo as publicações que nele se pretendem autorizadas. Em outras palavras, a resenha de tudo o que se publica de psicanálise. De novo, mais três subseções: comentário contínuo do movimento psicanalítico, articulação com as ciências afins e a ética da psicanálise.
     Em 1967 Lacan lança sua famosa Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola, onde vai se tratar de "estruturas asseguradas na psicanálise e de garantir sua efetivação no psicanalista". É aqui que ele faz a distinção entre hierarquia e gradus, coloca a questão da garantia e, principalmente, onde ele propõe o dispositivo do passe. Também é nesse momento que ele lança seu famoso "o analista só se autoriza de si mesmo". Isso tudo requer que nos detenhamos um pouco aqui.
     O fato de o analista se autorizar de si mesmo, para Lacan, é um princípio que abre várias vias de discussão. Em primeiro lugar, isso não implica que qualquer um seja analista. Autorizar-se não é autorritualizar-se, como costuma se expressar Antônio Quinet, e se a análise é necessária, não é suficiente. Por outro lado, esse é um princípio que não impede que a Escola garanta que um analista dependa de sua formação (sabendo-se, ao mesmo tempo, que a garantia não existe, que o Outro é barrado). E o analista pode querer essa garantia, o que, por conseguinte, só faz ir mais além: tornar-se responsável pelo progresso da Escola, tornar-se psicanalista da própria experiência. Essas duas formas correspondem ao AME e ao AE. 
     Vejamos: Lacan introduz a dessemelhança, a desigualdade dos membros em relação à psicanálise, pois, embora todos sejam iguais perante o trabalho (cartel), não o são perante a formação analítica e o reconhecimento como analista da Escola. Uma coisa é a hierarquia, que diz respeito à gestão da Escola e envolve poder e jogo político; outra é o gradus ou grau, que introduz a diferença entre os analistas. Assim se expressa Quinet: a Escola não autoriza nem desautoriza ninguém a praticar a psicanálise, mas é seu dever reconhecer e garantir aquele que aí tenha feito sua formação e dado provas de sua prática como analista. Nesse caso, a Escola lhe confere o título de AME. AE é o título conferido àquele que fez o passe, no qual se reconheceu a passagem de analisante a analista em seu relato sobre sua análise. Há uma diferença, então, entre autorização e garantia.
     Lacan, então, coloca na mesa a questão da garantia. Esta funciona para o gradus, que depende de uma nomeação. "Os AME são o sintoma de uma Escola porque são a resposta que a Escola dá ao Outro social que interroga: 'Afinal, quem são os analistas desta Escola?' A resposta vem na nomeação dos AME: 'Estes são os analistas garantidos por essa Escola'." 
     "Já a garantia do Analista da Escola (AE) corresponde, segundo Lacan, ao significante da falta no Outro - S(A/). Sua nomeação não provém de uma questão que chega do socius: ela responde à questão interna da Escola no que diz respeito à pulsão. A nomeação de um AE faz ressoar as perguntas de Lacan no Seminário 11: 'O que se torna então aquele que passou pela experiência desta relação, opaca na origem, à pulsão? Como um sujeito que atravessou a fantasia radical pode viver a pulsão?' E Lacan completa, ainda em 1964, 'isto é um mais além da análise, e jamais foi abordado' (Lacan, 1979, p. 258)." (Maria Anita Carneiro Ribeiro)
     Continua Maria Anita: "O AE é nomeado a partir do passe, que é o dispositivo inventado por Lacan em 1967 para tentar responder às questões acima enunciadas. Trata-se na verdade de um dispositivo ao mesmo tempo muito simples e muito complexo. O sujeito que julga ter terminado sua análise e deseja dar seu depoimento para fazer avançar a psicanálise dirige-se à Secretaria do passe, tem uma entrevista e, uma vez aceito, sorteia dois passadores que irão escutá-lo. (...) O passante se encontrará com os passadores, um a um em separado, e dará seu depoimento. Os passadores, por sua vez, também em separado, transmitirão esse depoimento ao Cartel do Passe (antigo júri), (...) que ouvirão os depoimentos dos passadores, estudarão o caso clínico e decidirão sobre a nomeação ou não do AE.
     "Uma vez nomeado AE, cabe ao analista dar, durante três anos, o ensino mais importante da Escola: ensinar a partir de sua própria experiência com a psicanálise, a partir do que aprendeu, às suas próprias custas, no divã."
     O que vem a ser o passe? A palavra passe, em francês, quer dizer passagem, nos dois sentidos do termo: como fato de passar de um local para o outro e também local, logradouro, passadouro. "O passe é uma passagem. E tem o mesmo significante para duas coisas em Lacan: passagem, como mudança subjetiva de psicanalisante a psicanalista, também chamada de momento do ato analítico que ocorre no interior de uma  análise (passe clínico), assim como dispositivo de Escola de verificação dessa passagem." (...) Só se pode afirmar que houve passe quando este foi verificado enquanto tal; ou seja, o passe, essa passagem, não está desarticulada da sua própria verificação num dispositivo, fazendo parte, portanto, do conceito de Escola."
     O passe possibilita então uma continuidade entre o privado e o público, entre a experiência do divã e a transmissão da psicanálise. (doutrina) A escola deve poder garantir que haja analistas que possam dar início a análises e garantir analistas em que ficou demonstrada a passagem de seu estatuto de analisante ao de analista, efetuada na própria experiência analítica. Com isso Lacan esperava não só o testemunho dos AEs sobre os problemas cruciais da psicanálise, como também do júri do passe. Pois foi justamente quanto a esse  ponto que Lacan iria decretar o fracasso do passe em sua Escola.
     A experiência do passe foi retomada por Escolas que se seguiram à EFP e o júri se transformou no cartel do passe. Este deve ter um trabalho de doutrina além de sua função de selecionador, assim como os AEs, que têm uma função de transmissão. (...) O passe tem como direção elaborar um saber sobre esse final, a partir da lógica da construção de caso e de um trabalho de doutrina sobre a própria análise e a passagem de analisante a analista. (Quinet)
     "A Escola tenta responder, com o dispositivo do passe, ao real em jogo na formação do analista. Algo desse real vai estar presentificado no objeto 'a' que o sujeito terá cingido em sua análise a partir da elaboração de um saber. "(como está na proposição - teoria do final de análise)
     Quinet fala de sua experiência no dispositivo nos seguintes termos: 
     "Fiz parte de um cartel do passe de uma Escola e gostaria de ressaltar que, não obstante os problemas políticos, o passe é um dispositivo de uma clínica psicanalítica levada até as últimas consequências: a que forma um analista."
     (...) O cartel do passe que escuta dos dois passadores o que foi depositado da análise do passante tem também uma visão panorâmica sobre a análise relatada pelo passante e, portanto, se encontra em condições de verificar a emergência do desejo do analista."
     Já mencionei o fracasso da EFP, e isso se deveu, basicamente, ao fracasso do passe mas também à ausência de um ensino, segundo C. Soler e é por isso que em 5 de janeiro de 1980 ele dissolve a Escola. Em 15 de janeiro ele assim se expressa: não espero nada das pessoas, apenas alguma coisa no funcionamento. Portanto é preciso que eu inove, pois falhei nesta Escola, fracassando ao não produzir seus Analistas(AE) à altura. Em seguida ele dá partida à Causa Freudiana - que, mais tarde, se tornará Escola - e reafirma o cartel como seu órgão de base.
     Vamos então falar um pouco sobre o cartel.
     O cartel é um pequeno grupo, uma formação coletiva que corresponde às descobertas psicanalíticas de Freud sobre a psicologia das massas e também na experiência clínica de Bion com pequenos grupos durante a Segunda Guerra, utilizando o princípio do "grupo sem líder".
     Embora essa invenção de Lacan seja uma inovação, ela faz sentido dentro de uma Escola de psicanálise tal como ele a concebeu, pois se a psicanálise inovou na constituição de um novo tipo de laço social, diferente daquele que une o paciente a seu médico, por que não o faria na própria formação dos analistas e na maneira de eles estudarem a psicanálise? O cartel introduz, por um lado, a finalidade de uma tarefa a ser cumprida e, de outro, o conceito de dissolução após cumprida a tarefa. Portanto o cartel é, ele mesmo, um convite ao trabalho, um empurrão. No segundo item da fórmula afinada, ele usa o termo provocar. Ao falar assim, Lacan faz referência ao conceito de causa, que é a função do agente em cada um dos quatro discursos.
     Como os participantes de um cartel não são necessariamente membros da Escola, ele se torna um lugar simultaneamente central - pois é o núcleo da transmissão - e ao mesmo tempo externo a ela. (topologia)
     A partir desse ponto, podemos propor alguns comentários.
     Em primeiro lugar, a Escola de Lacan pretende ser sua resposta à pergunta sobre se a psicanálise nos fornece instrumentos para nos organizarmos como analistas. Isso tem vários desdobramentos, principalmente em relação a que tipo de instituição deve reunir os analista e também aos conceitos de analista e análise didática. Lacan sempre fez a crítica da formação, masmo quando ainda pertencia à IPA. Para ele, a formação dá-se principalmente na análise, e se, para ele, não vai haver diferença entre análise didática e terapêutica - qualquer análise, se levada até um certo ponto, produzirá um analista - isso o levará a abolir a lista de didatas. Como ele nunca foi a favor do isolacionismo dos analistas, ele promove o confronto entre os "didatas" e os candidatos, ao invés de separar um do outro.
     Quanto ao analista, quando ele fundou sua Escola, fundou também as bases para um novo conceito de analista, modificando-o radicalmente e também seu modo de formação. Na Escola, não existe uma identidade do analista - essa não é uma mera função, ou uma profissão, mas algo resultante da experiência da análise - e o que está no seu centro é um saber que surge do real, sobre o analista. A Escola deve ser o lugar onde se busca esse saber, e o passe é o dispositivo que permite essa investigação e faz a especificidade da Escola. Assim se expressa o próprio Lacan:"uma análise implica por certo as conquistas de um saber que está aí, antes que o saibamos, isto é, o inconsciente, e desde logo que o sujeito possa aprender aí como isso se produziu. Neste sentido, e só neste sentido, uma análise é didática." (Sobre a Experiência do Passe)
     

Referências Bibliográficas e Sugestões de Leitura
- Lacan, Outros Escritos. Textos sobre a Escola
- Lacan, Documentos para uma Escola. Revista da Letra Freudiana
- Quinet, A. A Estranheza da Psicanálise
- Carneiro Ribeiro, Maria Anita. A Cisão de 1998
- Roudinesco, Elisabeth. Jacques Lacan, Esboço de uma Vida

Nenhum comentário: